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Minervino Wanderley
| minervino@natalpress.com
| 27/05/2009


Para Martha Salem, minha mãe


Minervino Wanderley*

A raça humana, por sua própria multiplicidade, guarda significativas diferenças entre si. Nesse rol, existem indivíduos que pertencem a uma classe que podemos denominá-la de especial. São aqueles que, apesar dos obstáculos surgidos ao longo das suas caminhadas, não se entregam e, às vezes, por suas proporções, podemos até dizer que até teimam continuar vivendo. São os obstinados pela vida, que extraem dessas adversidades suprimentos necessários para sedimentar seus passos.

Mas essa eutanásia às avessas tem uma razão de ser: dentro de cada um desses seres, lá dentro, bate um coração ávido pelo simples prazer de estar vivo. São os que sabem valorizar o nascer de um novo dia como se fosse um novo começo. São aqueles que, através de simples gestos, espontâneos e habituais, deixam brotar seu amor pelo próximo, injetando nos menos providos, por meio de sua sabedoria, doses de ânimo e coragem.

Martha Wanderley Salem, 97 anos, é um exemplo de uma pessoa especial. Ela não sucumbiu ante os entraves e tampouco debitou ao destino sua situação. Sua vontade de vencer os desafios colocou-a como participante do jogo da vida, não permitindo que ela fosse simplesmente uma espectadora. As desventuras solidificaram seus sentimentos, abrindo espaço para que seu espírito solidário emergisse, e que sua voz sempre fosse plena de entusiasmo e de incentivo aos necessitados. Uma pessoa, na sua mais pura essência, do bem.

D. Martha é realmente uma pessoa diferenciada. Na sua infância, em Açu, sua predileção era pela convivência com as freiras austríacas do colégio onde estudava. Desse cotidiano surgiu um amor incondicional pela Áustria. Aprendeu a língua alemã e, por muitas vezes, tentou transmitir aos filhos esse aprendizado. Infelizmente, sem sucesso. Ela falava do Tirol e de sua capital, Insbruck, como se lá vivesse há muito. Tal amor fica bem exemplificado quando, ao se encontrar com uma amiga que acabara de chegar do “seu” país, disse: “Deixe-me fitar os olhos que fitaram a minha Áustria.” Sem maiores comentários.

Mas a sua sensibilidade não fica por aí. Para externar seu amor às coisas belas da vida, ela fez uso de um outro dom: a pintura. Através dessa arte, conseguiu retratar coisas que habitavam sua brilhante mente. Flores, principalmente suas adoradas orquídeas, paisagens, rostos, serviram de inspiração para seus quadros, tanto em óleo, quanto em aquarela. Verdadeiras obras-primas.

Rapidamente tornou-se professora e inúmeras gerações tiveram o privilégio de com ela compartilhar um pouco dos seus conhecimentos. Fosse no campo das línguas ou da pintura, todos encontravam em D. Martha a mestra ideal. Paciente e obcecada por dividir o que sabia, seus dias eram de inteiro prazer. Sua capacidade de comunicação sempre foi invejável. Mantinha longas “palestras” com jovens e com adultos com o mesmo prazer. Guardou-os dentro do seu coração e, até hoje, tem enorme carinho por esses amigos que conquistou durante a vida.

Dona Martha é, sem dúvidas, alguém que tem um verdadeiro caso de amor com a Vida.

*Jornalista


| Minervino Wanderley, Colunista

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