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Pablo Capistrano
| pcapistrano@hotmail.com
| 13/10/2007


A Arte do ator


Todo mundo sabia que Paulo Autran estava perto de morrer. A morte sempre anda com a gente, ela é sempre a última possibilidade de cada uma das infinitas vidas que o tempo trouxe à tona. Mas, quando se dobra a esquina dos oitenta, então a morte acaba encaixando junto da gente e fica por ali, rondando, se apresentando a cada dia de forma cada vez mais clara. Apesar disso, sem nenhuma “funebridade”, a morte de Paulo Autran abre um buraco na arte brasileira que vai demorar muito a ser fechado. Sabe, nasci em de uma família de atores amadores, minha mãe, minha madrinha, meu pai e meu padrasto, todos trabalhavam com teatro e eu acabei absorvendo alguma coisa desse universo. Uma das coisa que eu aprendi é que o teatro é a arte do ator. A presença viva do ator é insubstituível, mesmo que não seja um ator shakespereano, em um palco italiano que simula uma parede invisível separando a peça da platéia; mesmo na rua, em espaços arquitetônicos diversos, em lages de periferia ou em quadras de esportivas de escolas públicas o ator faz o teatro vivo, porque o ritual do teatro é antes de mais nada o ritual da presença do ator, de seu corpo, de sua voz, de sua áurea.

Se havia alguém no Brasil que personificasse esse entendimento esse alguém era o Paulo Autran. Quando o Walter Benjamim escreveu na década de trinta do século passado o ensaio clássico “A obra de Arte na Era de sua reprodutibilidade técnica” o processo de massificação da cultura já estava em expansão. A idéia fundamental é simples: a arte está perdendo seu aspecto sagrado. Não há mais áurea nos objetos artísticos porque eles podem ser reproduzidos, clonados, digitalizados, foto copiados, scaneados, embalados para presente e transformados em mercadorias enfileiradas nas prateleiras das lojas de departamento. Quem precisa assistir um show da Ivete Sangalo para conhecer sua música? Quem precisa viajar até a biblioteca do vaticano para ler os livros de Aristóteles? Quem precisa ir ao Louvre para conhecer as pinturas de Claude Monet? Ninguém precisa viajar à Dublin para ver Bono Vox se arrastando no chão de um palco em forma de coração enquanto canta uma música romântica ao lado de uma fã em êxtase sexual. A arte foi duplicada, replicada e disponibilizada na rede. Uma entrada no Google e estarão a disposição do seu olho toda a herança pictográfica da humanidade em formato JPG. O que Benjamim percebeu foi que a arte havia cedido ao processo de industrialização. Agora ela é um produto que pode ser produzido em série e comercializado. Esse processo retira da arte seu caráter mágico de objeto único. Exaure a arte de sua sacralidade estética. Paulo Autran mostrou que Benjamim estava, apenas em parte, correto.

Muita gente não entende porque o maior ator brasileiro desprezava de modo tão explicito a televisão. Em um mundo onde jovens atores e atrizes praticam as maiores misérias morais para conseguir uma ponta na novela das oito, onde desconhecidos se mutilam e se submetem ao ridículo para serem objeto de uma fama inútil e idealizada em qualquer reality show vagabundo. Em uma época na qual atores e atrizes são utilizados pela grande indústria e depois são jogados no ostracismo como se fossem rolos de papel higiênico usados. Em uma época como essa, é maravilhoso saber que o maior ator brasileiro não se reduziu a um ícone, mas manteve-se ligado a arte teatral: a última fronteira da áurea.O teatro é assim, irrepetivel, irredutível a um pacote, irreproduzível. Não se duplica uma apresentação teatral. Cada apresentação é única e toda apresentação exige a presença física do ator. Sua energia vital. Seu orgon. O mundo do teatro não é um mundo de imagens vazias e de caras e bocas bem torneadas em fotoshop. O mundo do teatro é o mundo da presença física do ator no palco. A resistência de uma forma artística que se manteve inerte diante de um processo de industrialização que afetou quase todas as outras formas estéticas. A era da reprodutibilidade técnica não chegou ao palco, porque, como o próprio Autran ensinava, não importa quão bom vai ser o teleteatro, a telenovela, ou a mini-série, elas sempre serão, simplesmente, no máximo, bons programas de televisão. E isso, me desculpem, é muito menos do que qualquer teatro.





Pablo Capistrano
www.pablocapistrano.com.br



| Pablo Capistrano, Escritor, professor de filosofia do direito e ética. www.pablocapistrano.com.br

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