Natal/RN — Segunda, 6 de Setembro de 2010









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Michelle Brito
| britomichelle@yahoo.com.br
| 11/08/2009


Michelle Brito abre espaço na sua coluna para o artigo do Prof. Dr. Luiz Pereira de Brito: "Reuso de Esgoto Tratado: Preparação para o Futuro"

(Professor do Programa de Pós em Engenharia Sanitária da UFRN – lbrito@ct.ufrn.br)

Um dia destes um amigo seridoense confidenciou-me: “você já notou que depois que começaram a falar em aquecimento global nunca mais teve um ano ruim de inverno?”. Como um cacoete que incorporei após quase trinta anos trabalhando com pesquisa, geralmente não me manifesto sobre questões sérias sem um embasamento científico consistente e não expressei nenhuma opinião naquele momento.

Esta semana, ao ler um artigo da última BIO- Revista Brasileira de Saneamento e Meio Ambiente, publicada pela ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental, com periodicidade trimestral, encontrei um estudo nada otimista para com o futuro da Região Nordeste do Brasil que, ao se confirmar, trará uma grande frustração ao meu amigo esperançoso de anos bons de invernos nestes tempos de mudanças climáticas.

O referido estudo, intitulado “Migrações e Saúde: Cenários para o Nordeste Brasileiro 2000/2050”, foi elaborado pelo CEDEPLAR - Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais e pelo Centro de Pesquisas René Rachou, da FIOCRUZ - Fundação Oswaldo Cruz. Nele uma equipe multidisciplinar, baseada em informações do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas e em dados sócio-econômicos, ambientais e de saúde, trabalha de uma forma integrada variáveis demográficas, econômicas e climáticas para explicar cenários futuros.

Um destes cenários: “nos próximos 40 anos, cerca de meio milhão de pessoas deve deixar suas cidades na região, a mais afetada do país pelas mudanças climáticas. O aumento da temperatura, estimado em até 4 graus Celsius, vai gerar escassez de alimento e problemas de saúde. Além disso, vai provocar um grande impacto na economia nordestina que terá, estima-se, uma redução de 11,4% no seu Produto Interno Bruto, em comparação ao crescimento que seria verificado sem as mudanças climáticas”.

Segundo afirma Ulisses Confalonieri, da FIOCRUZ, um dos coordenadores da pesquisa: “o processo ambiental que se desenrolará nas próximas décadas, e a sua conseqüente queda de produção agrícola vai inviabilizar a ocupação de grande parte do território. Um dos motivos principais será a falta de água, que vai aumentar a aridez em uma região bastante populosa: há cerca de 22 milhões de pessoas vivendo no semi-árido nordestino”. Contudo faz questão de ressaltar: “esse cenário não é definitivo. Depende diretamente das políticas que devem ser implementadas, desde já, para reduzir a vulnerabilidade da região”.

Uma destas políticas, sem dúvida, é a de gestão integrada das águas. Nela incluída as águas para consumo humano, para as atividades comerciais, industriais e agrícolas. Uma gestão dos recursos hídricos que possibilite racionalizar e socializar o uso da água e que incorpore o reuso de esgoto tratado para atender aquelas atividades que tolerem água de qualidade inferior.

Quando iniciaram-se as discussões no COMSAB - Conselho Municipal de Saneamento Básico do Município de Natal sobre a estação de tratamento do sistema de esgotamento sanitário de Ponta Negra/Capim Macio, defendi um nível de tratamento para este sistema equivalente ao da estação que está sendo construída no baldo (tratamento em nível terciário) antes do lançamento através de emissário submarino, por dois motivos que julgo importante: a proteção sanitária da população que utiliza as praias para seu lazer (com risco praticamente nulo para as atividades turísticas) e a oportunidade de criarmos uma fonte alternativa de água passível de ser reutilizada num futuro próximo.

Na verdade penso que, da mesma forma que foram executadas adutoras para levar água de boa qualidade para consumo humano para diversas regiões do Estado, também é possível construirmos uma rede paralela de adutoras transportando efluentes tratados em estações de tratamento de esgotos da região metropolitana de Natal e de outras cidades, para o semi-árido onde poderão atender a diversos usos não potáveis.

A título de exemplo, a região metropolitana de Natal, que concentra 42% da população do Estado do RN, com seus 1.255.409 habitantes (IBGE/2007) é capaz de gerar 200.865 m3 de esgoto/dia (19% da vazão regularizada da Barragem Armando Ribeiro), que tratado adequadamente pode alcançar níveis de qualidade compatíveis com reusos agrícolas, industriais e urbanos. Só para ficarmos no reuso agrícola, esse volume é suficiente para irrigar uma área de 2.325 hectares (11,6% da área agrícola irrigada no semi-árido do RN), admitindo-se uma aplicação de 10 mm de água/dia.

Os números apresentados não são desprezíveis, sem falar nos ganhos ambientais e econômicos do reuso de esgoto tratado em irrigação em virtude de reduzir ou até dispensar o uso de adubos químicos, já que o esgoto é rico em nutrientes e, neste caso, não necessitam ser removidos na estação de tratamento.

Para concluir, acho que podemos nos preparar para a provável escassez de recursos hídricos que advirão, repetindo a história bíblica de José do Egito interpretando o sonho do faraó: gerando e preservando recursos nos tempos das vacas gordas para serem utilizados nos tempos das vacas magras. A única forma de minimizarmos as conseqüências da escassez da água é aproveitarmos os recursos que estão sendo investidos atualmente em saneamento para construirmos modernas e eficientes estações de tratamento de esgoto pois, ao mesmo tempo, estaremos construindo barreiras contra a contaminação dos mananciais e criando fontes alternativas de água.

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Reuso de Esgoto Tratado: Preparação para o Futuro.

Luiz Pereira de Brito
(Professor do Programa de Pós em Engenharia Sanitária da UFRN – lbrito@ct.ufrn.br)

Um dia destes um amigo seridoense confidenciou-me: “você já notou que depois que começaram a falar em aquecimento global nunca mais teve um ano ruim de inverno?”. Como um cacoete que incorporei após quase trinta anos trabalhando com pesquisa, geralmente não me manifesto sobre questões sérias sem um embasamento científico consistente e não expressei nenhuma opinião naquele momento.

Esta semana, ao ler um artigo da última BIO- Revista Brasileira de Saneamento e Meio Ambiente, publicada pela ABES - Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental, com periodicidade trimestral, encontrei um estudo nada otimista para com o futuro da Região Nordeste do Brasil que, ao se confirmar, trará uma grande frustração ao meu amigo esperançoso de anos bons de invernos nestes tempos de mudanças climáticas.

O referido estudo, intitulado “Migrações e Saúde: Cenários para o Nordeste Brasileiro 2000/2050”, foi elaborado pelo CEDEPLAR - Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais e pelo Centro de Pesquisas René Rachou, da FIOCRUZ - Fundação Oswaldo Cruz. Nele uma equipe multidisciplinar, baseada em informações do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas e em dados sócio-econômicos, ambientais e de saúde, trabalha de uma forma integrada variáveis demográficas, econômicas e climáticas para explicar cenários futuros.

Um destes cenários: “nos próximos 40 anos, cerca de meio milhão de pessoas deve deixar suas cidades na região, a mais afetada do país pelas mudanças climáticas. O aumento da temperatura, estimado em até 4 graus Celsius, vai gerar escassez de alimento e problemas de saúde. Além disso, vai provocar um grande impacto na economia nordestina que terá, estima-se, uma redução de 11,4% no seu Produto Interno Bruto, em comparação ao crescimento que seria verificado sem as mudanças climáticas”.

Segundo afirma Ulisses Confalonieri, da FIOCRUZ, um dos coordenadores da pesquisa: “o processo ambiental que se desenrolará nas próximas décadas, e a sua conseqüente queda de produção agrícola vai inviabilizar a ocupação de grande parte do território. Um dos motivos principais será a falta de água, que vai aumentar a aridez em uma região bastante populosa: há cerca de 22 milhões de pessoas vivendo no semi-árido nordestino”. Contudo faz questão de ressaltar: “esse cenário não é definitivo. Depende diretamente das políticas que devem ser implementadas, desde já, para reduzir a vulnerabilidade da região”.

Uma destas políticas, sem dúvida, é a de gestão integrada das águas. Nela incluída as águas para consumo humano, para as atividades comerciais, industriais e agrícolas. Uma gestão dos recursos hídricos que possibilite racionalizar e socializar o uso da água e que incorpore o reuso de esgoto tratado para atender aquelas atividades que tolerem água de qualidade inferior.

Quando iniciaram-se as discussões no COMSAB - Conselho Municipal de Saneamento Básico do Município de Natal sobre a estação de tratamento do sistema de esgotamento sanitário de Ponta Negra/Capim Macio, defendi um nível de tratamento para este sistema equivalente ao da estação que está sendo construída no baldo (tratamento em nível terciário) antes do lançamento através de emissário submarino, por dois motivos que julgo importante: a proteção sanitária da população que utiliza as praias para seu lazer (com risco praticamente nulo para as atividades turísticas) e a oportunidade de criarmos uma fonte alternativa de água passível de ser reutilizada num futuro próximo.

Na verdade penso que, da mesma forma que foram executadas adutoras para levar água de boa qualidade para consumo humano para diversas regiões do Estado, também é possível construirmos uma rede paralela de adutoras transportando efluentes tratados em estações de tratamento de esgotos da região metropolitana de Natal e de outras cidades, para o semi-árido onde poderão atender a diversos usos não potáveis.

A título de exemplo, a região metropolitana de Natal, que concentra 42% da população do Estado do RN, com seus 1.255.409 habitantes (IBGE/2007) é capaz de gerar 200.865 m3 de esgoto/dia (19% da vazão regularizada da Barragem Armando Ribeiro), que tratado adequadamente pode alcançar níveis de qualidade compatíveis com reusos agrícolas, industriais e urbanos. Só para ficarmos no reuso agrícola, esse volume é suficiente para irrigar uma área de 2.325 hectares (11,6% da área agrícola irrigada no semi-árido do RN), admitindo-se uma aplicação de 10 mm de água/dia.

Os números apresentados não são desprezíveis, sem falar nos ganhos ambientais e econômicos do reuso de esgoto tratado em irrigação em virtude de reduzir ou até dispensar o uso de adubos químicos, já que o esgoto é rico em nutrientes e, neste caso, não necessitam ser removidos na estação de tratamento.

Para concluir, acho que podemos nos preparar para a provável escassez de recursos hídricos que advirão, repetindo a história bíblica de José do Egito interpretando o sonho do faraó: gerando e preservando recursos nos tempos das vacas gordas para serem utilizados nos tempos das vacas magras. A única forma de minimizarmos as conseqüências da escassez da água é aproveitarmos os recursos que estão sendo investidos atualmente em saneamento para construirmos modernas e eficientes estações de tratamento de esgoto pois, ao mesmo tempo, estaremos construindo barreiras contra a contaminação dos mananciais e criando fontes alternativas de água.



| Michelle Brito, Psicóloga

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