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Renato Carlos de Menezes
| renato_uchuicovsk@yahoo.com.br
| 08/04/2009


A influência cristã-nova na formação social e cultural brasileira

Diz-se comumente que a formação social e cultural da identidade colonial brasileira reflete uma amálgama extremamente complexa, resultado de um refluxo entre três matrizes fundadoras básicas: brancos luso-católicos, índios e negros. Oculta na primeira matriz, porém presente, está a componente cristã-nova.



No ano de 1497, o rei de Portugal, D. Manuel, obrigou que todos os judeus residentes nos domínios portugueses se convertessem ao catolicismo. Muitos dos prosélitos, denominados então de cristão-novos, migraram para uma terra além mar, recém formalizada pelos portugueses, buscando a realização do projeto de uma nova vida, longe das perseguições empreendidas na metrópole. Bem estabelecidos no Novo Mundo, muitos deles prosperaram e marcaram fortemente o processo social desenvolvido na colônia brasílica: contraíram matrimônio com cristão-velhos, negociaram escravos, dominaram a cultura açucareira e tornaram-se senhores de lavras. Em 1536, foi oficialmente estabelecido o Tribunal da Inquisição em Portugal. No Brasil, as visitações do Santo Ofício tiveram início a partir de 1591, instalando-se um clima de terror e denuncismo. Com isso, uma parcela significativa de cristãos-novos passou a ocultar sua identidade judaica; apresentando-se em público como católicos romanos, mas guardando no âmbito familiar sua lei ancestral.

A exemplo dos indígenas e dos negros que resistiram ao empreendimento de homogeneização cultural imposto pelos luso-católicos, re-significando o sistema simbólico destes a partir de uma leitura singular própria dos seus respectivos universos culturais, a partir de práticas dissimulatórias. Os cristãos-novos também criaram formas de resistência de sua identidade, que com a intensificação do processo de miscigenação, foram diluídos no corpus cultural brasileiro. Isso gerou a criação de numeroso exército de seres marginais – só na capitania de Pernambuco contabilizava 30% da população Branca – que não eram nem católicos, nem judeus puros; que com a intensificação do processo de miscigenação desencadeado no Brasil, foram ainda mais diluídos.



Não estou aqui querendo propor uma construção de uma historiografia étnica, que exalte a importância dos cristãos-novos na história brasileira e legitime os marranos contemporâneos - como ocorre com os movimentos indígenas e quilombolas-, mas, sim, indicar à necessidade de se repensar a história do Brasil, frentes os resultados apresentadas nos estudos realizados por Anita Novinsky, Natan Wachtel, Ângelo Farias Assis,Tânia Kaufmann, Bruno Fleiter, dentre outros historiadores; que evidencia a efetiva participação daqueles na nossa formação.





Esta não é uma discussão nova. Luis da Câmara Cascudo na década de 1960, em seu “Mouros, Franceses e Judeus”, já se questionava acerca das raízes de alguns hábitos e expressões observados no país, que segundo o mesmo, só encontrariam correspondência no instrumental cultural judaico.



O nordeste brasileiro observa um riquíssimo arsenal de tradições e costumes que são sintomáticas dessa influência, como por exemplo: varrer a casa de trás para frente, com o objetivo evitar que se lance a porta da frente à sorte junto com lixo; que seria uma re-significação da tradição judaica de não passar lixo pela porta da frente em respeito à Mezuzá. Acender velas as sextas ou segundas-feiras endereçando as almas; o que encontraria significado no acender de velas do Shabat (Dia sagrado dos judeus, que vai do entardecer das sextas-feiras ao mesmo período do dia seguinte). Atribuir à alcunha de “pesado” a alimentos preparados com carne suína e/ou com crustáceos; alimentos proibidos pelo Kashrut (Lei dietética judaica).



Todavia, dado o nosso grau de miscigenação é impossível pensar estas práticas de forma pura. Estas, como os costumes indígena, africanos e luso-católicos envolvidos na formação social e cultural brasileira, estão mescladas e não fazem mais parte do arsenal de tais grupos especificamente, mas de um grupo maior: o povo brasileiro.






| Renato Carlos de Menezes, Discente de graduação em História na UFRN; articulista e pesquisador.

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