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Pe. Agustin Juan Calatayud y Salom sj
| agustincalata@ig.com.br
| 12/07/2006


Bento XVI, em Valencia

Com motivo do encerramento, semana passada, do V Encontro mundial das famílias, o Papa esteve em Valencia (Espanha), minha terra natal. Foi a terceira viagem internacional do Papa Ratzinguer. Não o teve fácil o Papa alemão, neste fim de
semana. Porém, um Papa humilde, simples e comunicativo, fez a festa de mais de um
milhão de católicos. O que eu observei, graças à internet, que me manteve ligado ao Canal 9 da Radio e Televisão Valenciana Internacional:


1º. No começo da semana, um acidente no metrô valenciano, que matou 42 pessoas e feriu outras tantas, enlutou tanto a cidade quanto o encontro das famílias, tanto os valencianos quanto os peregrinos que acorreram a Valencia para refletir sobre o matrimônio e a família cristã. Famílias valencianas, em sua maior parte, foram
atingidas pela morte. As vítimas e a dor das famílias pairaram o tempo todo sobre o
encontro e a visita papal.



2º. Apesar de tudo, o encontro aconteceu. Num clima difícil e quente. O governo, há pouco, conseguira aprovar no Parlamento a lei sobre o "matrimônio" homossexual, equiparando-o ao matrimônio tradicional. O choque com as elites eclesiásticas, que já vinha se arrastando por causa da lei de educação que marginaliza a matéria da
religião na escola, se encontrou numas altas temperaturas que, por se fosse pouco,
se elevaram mais ainda, com a aprovação de Estatutos de Autonomia de algumas regiões
daquilo que, tradicionalmente, conhecemos como nação espanhola. Alguns Bispos (não todos, graças ao meu bom Deus), começaram a defender a unidade da nação, hipoteticamente ameaçada, dizendo que "Espanha é um bem moral".



3º. Por se fosse pouco, falou-se em manipulação do encontro familiar e da visita do Papa, por parte dos movimentos mais ultra-eclesiais e do maior partido político espanhol das direitas tradicionais.



4º. Assim, pois, sábado passado de manhã, o Santo Padre chegou a Valencia. Quebrando
o roteiro preparado, quis chegar até a entrada do metrô, em cuja estação acontecera o acidente mortal. Abrigado pelo calor intenso de verão mediterrâneo, pelas cores branco-amarelas do Vaticano em todo o percurso e pelo calor humano da multidão que lançava seus vivas! de boas vindas, o Papa rezou e depositou uma coroa de flores in memoriam. O Papamóvel rumou para a Catedral, em cuja porta principal e fachada
barroca esperava-o, para entregar as chaves da cidade, a Prefeita, além do Presidente do governo valenciano. Na Capela gótica do Santo Graal teve umas palavras com o episcopado. Desde o Altar Mor da Catedral, em cuja cúpula brilham uns afrescos do século XV, recém restaurados, deu a benção aos fiéis. Logo depois, dirigiu-se até
a Basílica da padroeira de Valencia, La Mare de Déu dels Desamparats (Nossa Senhora dos Desamparados), onde as famílias das vítimas do acidente o esperavam. O Papa alemão, com uma ternura inaudita, consolou cada uma das pessoas que, com lágrimas nos olhos, o abraçaram e foram abraçadas por ele. Rezou com elas. Depois, desde a Praça de la Mare de Déu, repleta de gente que se espalhava pelos antigos e tradicionais becos adjacentes, falou aos peregrinos. Uma frase em língua valenciana levou ao delírio os presentes. Na intimidade do Palácio Arquiepiscopal, almoçou
paella. Conhecer este detalhe me deu uma saudade imensa. De tarde, recebeu o
Presidente a Vice-presidenta do governo, que foram vaiados a sua chegada ao Palácio
arquiepiscopal. No Palácio de la Generalitat (governo valenciano) recebeu a família real que fora aplaudida por todos.



5º. No fim da tarde o Santo Padre abandonou a Valencia antiga, com vestígios romanos, visigóticos, muçulmanos e cristãos dos séculos XIII e XV, para desvendar perante seus olhos a Valencia do século XXI, na monumental Cidade das Artes e das Ciências, com projetos do maior e mais valenciano arquiteto espanhol da atualidade,
Santiago Calatrava. O século XXI se descortinava no Palau de les Arts (a Ópera), L"Emispheric (cinema em três dimensões), el Palau de les Ciencies, l"Humbracle e l"Oceanographic... tudo unido por uma lámina de água, no que fora o antigo rio Turia, cujo leito fora desviado para evitar as enchentes que, aqui e acolá, açoitavam a cidade e que hoje é um imenso pulmão verde que atravessa a cidade. O altar, situado numa das pontes presidiria tudo. E o Papa chegou lá, para participar do encerramento do V Encontro Mundial das Famílias.



6º. Depoimentos, testemunhos, agradecimentos de uns e de outros se sucederam. A exaltação da família tradicional, por parte de todos, e apoiada pelo Papa, tornou-se uma proposta. Homem-mulher-filhos-transmissão da fé em família-consideração maior dos mais velhos, etc.



7º. Não houve condenação nenhuma, apenas a proposta cristã da família. A nossa Fafá de Belém cantou uma Ave Maria. Montserrat Caballé, um Pai Nosso

8º. No domingo de manhã aconteceu, no mesmo cenário, a celebração da Eucaristia presidida pelo Santo Padre e concelebrada por cinqüenta cardeais, quatrocentos Bispos e mais de três mil sacerdotes vindos de todo o mundo católico e, participada por milhão e meio de peregrinos dos cinco continentes. Segundo a oposição não havia
nem duzentas e cinqüenta mil pessoas. Estes mega-números minimizados sempre me provocaram a tentação de um sarcasmo. Mas, fico calado.



9º. Uma curiosidade, por causa da publicidade que deu a mídia internacional ao fato: o Presidente do governo socialista espanhol, Zapatero, não foi a Missa. Alguns ironizaram dizendo que Valencia não valia uma missa (ao contrário de Paris). Outros
que até Fidel Castro foi à Missa quando a visita de João Paulo II a Cuba. Outros, ainda, que não assistiu por temor a ser vaiado pelos católicos. E assim foram os comentários! Eu acho certo que, se o Presidente não é cristão, pois, não saberia
dizer muito bem porque deveria de estar lá. Reduzir a Eucaristia a um "ato oficial",
parece-me uma blasfêmia com o Corpo e o Sangue do Senhor.



10º. Na homilia, o Santo Padre não atacou ninguém, não condenou ninguém. Pelo contrário: propôs para quem quisesse ouvir o mistério sacramental de amor e de felicidade do matrimônio cristão e nos alertou a todos para não nos deixarmos levar pelas ondas do tempo. Também exortou para que a família cristã tenha sua influencia no seio da sociedade. Nada mais justo. E ponto! E, quem tem ouvidos para ouvir, ouça!



11º. Depois, quebrando o roteiro de volta para o aeroporto, como fizera na chegada, quis voltar no Papamovel pelas ruas centrais da cidade, para se despedir dos valencianos ao vivo e em cores... Os esquemas da segurança, não previstos, entraram
em parafuso e o Papa voltou para Roma onde o esperava uma comida espanhola...



12º. O que vi do papa Ratzinguer em Valencia, fez-me refletir sobre a função da mídia. Pois, por mais de vinte anos, o Cardeal nos fora apresentado como aquele "Rotweiller Gotes", chefe e administrador dos trovões da Doutrina da Fé. E,
certamente, nos enganaram. Agora o Papa nos mostra quem é: um homem simples, sensível, inteligente, que soube suavizar as tensões entre os eclesiásticos espanhóis e o governo, incansável, sorridente e até ingênuo, cumprindo um programa
intenso, apesar de seus 79 anos, humilde como um filho de Deus.



13º. Com esta visita a Valencia Bento XVI completou a agenda do seu amado predecessor João Paulo II. A partir de agora, será ele próprio quem vai decidir o quê e o como fazer. Em 2009 irá a México para o VI encontro mundial das famílias. Mas, em setembro deste ano, voltará para sua terrinha, a Alemanha pos-copa do mundo.




14º. Não foram poucas as comparações que os jornalistas fizeram deste Papa com o anterior. É inevitável. Mas muitos grupos cristãos de vanguarda se felicitam porque parece ser que acabou-se uma etapa que, alguns qualificaram de papolatria, para outra nas que se aprofunda e propõe a fé da igreja com maior simplicidade e clareza e, sendo apenas, uma proposta para as pessoas e as sociedades. Por outro lado,
aceitar a saída do veterano membro do Opus Dei, Navarro Valls, como porta-voz oficial do Vaticano, e convidar um jesuíta para a função, parece para muitos que, novos ares sopram pela Santa Sé. O tempo dirá. Mas, os indícios, são de abertura.
Uma abertura que, nenhum jornalista nestes últimos anos pode prever, viria propiciada pelo Cardeal Ratzinguer, hoje Bento XVI.




| Pe. Agustin Juan Calatayud y Salom sj , Padre, Pároco de Nossa Senhora da Esperança.

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