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Francisco Edílson Leite Pinto Junior
| edilsonpinto@uol.com.br
| 09/07/2009


O homem duplicado

“...Imaginei, por causa da sua insistência
que houvesse entre nós uma semelhança grande,
mas confesso-lhe que não estava preparado para o que tenho diante de mim,
o meu próprio retrato”.
José Saramago (O homem duplicado)

A epígrafe acima foi retirada do livro “O homem duplicado”, do fabuloso escritor português, José Saramago, que conta a estória de um professor de história, Tertuliano Máximo Afonso que, de uma hora pra outra, descobre ter um sósia - exatamente igual a ele, em tudo -, Antônio Claro, que é um ator secundário de cinema. Embora a estória seja um tanto quanto paradoxal, vale a pena lê-la, pois a narrativa de Saramago é bastante interessante e o final é totalmente imprevisível. Ah! Já que falei de paradoxo, não poderia deixar de citar a frase do fantástico escritor inglês, Oscar Wilde: “Por mais paradoxal que pareça – e paradoxos são sempre perigosos –, a verdade é que a vida imita muita mais a arte do que a arte imita a vida”. Então é isto que está acontecendo comigo desde o começo deste ano: a minha vida está imitando a arte.

Pois é, caro leitor, há muito tempo que tinha um forte desejo. E como bom seguidor do evangelho, seguia fielmente o que ensinava Mateus, no seu capítulo 7: “Pedi e recebereis, buscai e achareis, batei e abrir-se-vos-á”. E durante anos e anos, pedi que Deus pudesse me conceder a graça de ter um clone, ou melhor, vários clones. E pra que isso? Simplesmente, para deixar um só no trabalho, o tempo todo; outro com a família, também o tempo todo; um só descansando, sem fazer nada, como muitos políticos fazem...; outro só para ir às reuniões que não resolvem nada; outro só para viajar (de preferência com as passagens do Congresso Nacional). Seria bom um só para pagar o imposto de renda, não é mesmo? Enfim, teria clones para todos os gostos e ocasiões. E não é que de tanto pedir, Deus me atendeu: consegui um clone. Trata-se do meu ex-aluno Edilson Pereira Pinto Junior.

O danado é que de tanto ler o evangelho de Mateus, esqueci de continuar lendo o Oscar Wilde que, mais uma vez, foi de uma felicidade tamanha ao dizer: “Neste mundo só existem duas tragédias: uma é não conseguir o que se quer, a outra é conseguir. Esta última é muito pior”... É claro que seria um exagero dizer que a minha vida está uma tragédia, mas que está uma confusão danada, ah, isto está! E esta confusão começou desde que o Edilson P. Pinto Junior era meu aluno, pois logo no primeiro dia de aula – lembro, como se fosse hoje, que, ao pegar a lista de chamada e ver com todas as letras o seu nome – pensei: “Será que é meu filho?”. O coração bateu acelerado, mas logo me acalmei ao lembrar o ditado popular: “Quem tem filho barbado é gato!”. Portanto, o Edilson P. Pinto Junior, só poderia ser meu filho se eu o tivesse feito ainda no berçário, e pode acreditar, caro leitor: não iniciei a minha vida sexual tão cedo – argumento que usei para a minha estimada Profª. Maria do Carmo que, também, estava com a mesma dúvida minha.

O fato é que as confusões não param por aí. Até porque as semelhanças são muitas mesmo: Edilson P. Pinto Junior também é cirurgião oncológico (especialista em cirurgia de cabeça e pescoço), trabalha também na LIGA e Hosp. Walfredo Gurgel e, por isso, não é de estranhar que os meus pacientes estejam sendo internados no seu nome e vice-versa; que eu receba 5 ligações de uma mesma paciente que não conseguia entender como o mesmo Edilson, cirurgião oncológico, que trabalha na LIGA, mesmo sendo eu, não era eu; sem falar no inconveniente de ser acordado de madrugada para responder por um parecer do sobreaviso do qual nunca fiz parte.

Pois bem! Diante de tais transtornos, as enfermeiras da LIGA estão procurando uma forma de amenizar este problema. Algumas sugeriram que sejamos identificados – eu e meu clone – por algum detalhe do tipo: o novo e o velho (desconfio que seja eu, neste caso); o magro e o gordo (desconfio mais ainda que seja eu, neste caso); o com barba e o sem barba; o que opera da cabeça pra cima e o que opera da cabeça pra baixo... Mas, eu acho melhor separarmo-nos pelo gosto. E aí seria o seguinte: o de bom gosto e o de mau gosto. Neste caso, a identificação não teria problema algum, já que o meu ex-aluno tem um péssimo gosto de torcer contra o Flamengo e com um agravante ainda maior – o mesmo do jornalista Carlos Santos – o de torcer pelo Fluminense. Bem... Seja qual for a forma de identificação, espero que essa escolha seja a mais breve possível, pois confesso que não agüento mais ter que dizer que o Edilson Pinto não sou eu... ou melhor: que o outro Edilson Pinto, não tem nada a ver comigo... Danou-se, estou todo enrolado...


| Francisco Edílson Leite Pinto Junior, Professor do Departamento de Cirurgia da UFRN

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