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Francisco Edílson Leite Pinto Junior
| edilsonpinto@uol.com.br
| 03/11/2005


Uma arma poderosa


“Somos todos pastores de palavras. Principalmente e apenas isso. No entanto, com elas criamos o mundo”.
(Paulo de Tarso Correia de Melo)

Se até mesmo Deus e o diabo concordam, quem sou eu para discordar. Deus disse: “No princípio era o verbo. E do verbo se fez carne”. Mefistófeles do Fausto de Goethe, afirmava: Serve a palavra onde às idéias faltam. Disputa-se mui bem só com palavras,/ Com palavras sistemas se constroem,/ na palavra se crê com fé profunda”.

As palavras, portanto, têm múltiplas funções. Servem até de esconderijos: “As palavras, diz o poeta Manoel de Barros, me escondem sem cuidado”. Através delas, podemos expressar os desejos mais nobres e os mais sujos. Por isso, é que elas nos fazem rir ou chorar; criando emoções e ações.

Existem palavras que agridem e outras que tranqüilizam a alma. Volto ao poeta Manoel de Barros que, definitivamente, não gostava da palavra jacaré – repugnante pela fonética e pela própria aparência. No entanto, para o poeta do pantanal, a palavra garça é bela, não só pela elegância da ave, mas também pela “beleza letral”, que o deixa com uma espécie de encantamento poético.

As palavras, sem dúvida, são armas poderosas. Tão poderosas, que existe um provérbio, árabe, que diz algo parecido com: “o machado corta a árvore; a faca corta a carne, mas nenhuma delas fere mais do que as palavras, pois estas ferem a alma”. E olha que para ferir, as palavras nem precisam ser inteiras: “A bom entendedor, dizia Cervantes, meia palavra basta”.

Mas ... a palavra mesmo que me basta é escrita com duas vogais e duas consoantes: amor. É uma palavra que muitos não entendem ou se entendem fazem de conta que não conhecem, ou se conhecem, fazem de tudo para afastá-la de si.

Já que estou falando da palavra amor, não posso deixar também de citar o Drummond que tinha um poema onde dizia que “amar o perdido, deixa confundido o coração”.

Na lenda grega, segundo falam os poetas, a deusa Afrodite vendo que o seu filho Eros (Cupido) não crescia e continuava criança, foi queixar-se a Têmis. Esta respondeu: “Seu filho só irá crescer se tiver um companheiro que o ame”. Então, nasceu o irmão de Cupido, cujo nome era Anteros.

Enquanto eles estavam juntos, Cupido cresceu, mas volta a ser menino novamente, quando Anteros o deixa. O que os gregos quiseram dar a entender é que o sentimento de amor para crescer é preciso ser compartilhado, correspondido.

A questão é que a palavra amor é tão forte, sendo uma arma tão poderosa que se existisse esse sentimento, entre os homens, não haveria necessidade de andarem armados. Não precisaríamos ficar dias e dias, travando um debate que “nasceu do nada e levou a coisa nenhuma”, como foi esse referendo consultando sobre posso ou não posso ter armas?

Ah! Se houvesse amor entre as pessoas, as coisas eram bem diferentes. Tão diferentes, que acredito até que o Fedro de Platão tivesse mesmo razão quando no seu discurso, de apologia ao amor, afirmava: “só o amor conseguirá levar o homem a viver uma vida honesta... De sorte que se fosse possível formar um Estado ou um exército, exclusivamente composto por amantes e amados, assim obteríamos uma constituição política insuperável, pois ninguém faria o que fosse desonesto, e todos, naturalmente, se estimulariam para a prática de belas coisas”.

O triste é saber que pela falta de amor - no coração das pessoas-, é que surge grande parte de nossas desgraças. É por falta de amor, que as pessoas sentem-se vazias, procurando ocupar esse vazio com drogas – estimulando, assim, o tráfico e o crime organizado. Daí surge a insegurança; pela falta de amor, é que vemos famílias sendo destruídas; pela falta de amor, a natureza é diariamente agredida. E como toda ação corresponde a uma reação, surgem então, os tsunamis, as secas na Amazônia... pela falta de amor ao voto, é que surgem os piores bandidos: o político vigarista e corrupto.

São Paulo já dizia: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine”. Não tenha dúvida, caro leitor: sem caridade, não há salvação! E se vocês não acreditam, pelo menos reflitam sobre isso, antes de se armarem até os dentes!



| Francisco Edílson Leite Pinto Junior, Professor do Departamento de Cirurgia da UFRN

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