A trupe do Capitão Brito numa aventura cultural pela Terra dos Marechais
Naquela manhã de sol forte, a cidade de Passa e Fica, último lugarejo potiguar na divisa com a Paraíba, ficou para trás quando a nave capitaneada por seu Brito subiu as serras paraibanas, deixando a Pedra da Boca cada vez mais longe, se escondendo nas curvas da estrada. Os outros passageiros dessa aventura (dona Eunice, co-piloto da expedição, tia Terezinha, Cléo e este escrevinhador) assistiam ao espetáculo das cidades serranas que passavam rápidas pela janela do carro.
Uma rápida passagem por Campina Grande para resolver assuntos jurídicos, foi suficiente para que todos observassem que a Princesa da Borborema é uma cidade em desenvolvimento, de um ótimo clima e muito bem estruturada. Não vimos o Raio da Silibrina às margens do Bodocongó. Ainda assim, ficou a impressão que a terra de Elba Ramalho é um excelente lugar para morar. Entramos no interior de Pernambuco por Caruaru onde Seu Brito lembrou dos tempos acadêmicos, quando cursou Direito na terra da maior feira-livre do mundo, cantada e declamada em versos por Luiz Gonzaga e outros poetas da região. Alguns quilômetros adiante, sulancas por todos os lados caracterizam a rica feiúra da pequena cidade pernambucana de nome esquisito, Toritama, onde um grande comércio de roupas convive em meio a lixo e barracas de feira.
Com o brilho de uma lua cheia, clareando a estrada como se o luar guiasse o cansaço do capitão Brito – que nessas alturas, dirigia por muitas horas – adentramos em chão alagoano pelo alto sertão de Arapiraca, terra do tabaco e da cana-de-açúcar. Entre canaviais intermináveis, navegamos rumo à Maceió, atraídos pela história e as belezas naturais das terras dos Marechais. Depois de instalados num hotel a beira mar, dormimos o descanso dos justos, tendo os Sete Coqueiros da praia de Pajuçara como testemunhas da nossa presença na cidade. De manhãzinha, Dona Eunice levou Seu Brito pelo braço para uma saudável caminha pela orla da praia de Ponta Verde. Depois de saborear um bom café da manhã, onde não faltaram iguarias da região, a trupe de turistas potiguares decidiu visitar a histórica cidade de Marechal Deodoro, primeira capital do Estado de Alagoas.
Sempre navegando pela beira da praia, viajamos 30 quilômetros de Maceió até a pequena cidade localizada às margens da Lagoa Manguaba, Marechal Deodoro, construída em 1611, servindo de sede do governo da então província de Alagoas do Sul, de 1823 a 1838. A cidade de Marechal Deodoro possui grande valor histórico, principalmente por ter sido a primeira capital do Estado e berço do proclamador da República, que deu nome à localidade. Tombada pelo Patrimônio Histórico, tem valor arquitetônico riquíssimo, onde se destaca o complexo franciscano de Santa Maria Madalena. O município é banhado pelas lagoas Mundaú e Manguaba e tem vários atrativos naturais, como a Ilha de Santa Rita, uma área de preservação ambiental.
Visitamos o busto de Deodoro da Fonseca e a casa onde nasceu o Marechal. Um guia local contou a saga da família nas guerras que participou e os costumes daquelas pessoas aristocráticas, através de objetos caseiros e móveis da época. Um passeio pela cidade, reparando as casas mais sofisticadas com eiras e beiras em estilo colonial, marcou o fim da visita aquela cidade preservada pela história do seu povo.
Umas rápidas paradas na badalada Praia do Francês, os intrépidos turistas da taba de Poty puderam perceber a exploração desenfreada do turismo predador e as edificações não planejadas que tiraram à beleza daquela praia, onde em outros tempos foi porto seguro para navios de piratas franceses que traficavam pau-brasil. No final da tarde, o crepúsculo foi apreciado no Mirante de São Gonçalo, aonde vimos o centro da capital alagoana se render ao pôr-do-sol que, lentamente, descia por trás da Lagoa Mundaú, trazendo a noite para esconder as mazelas do desenvolvimento urbano, com suas crianças de rua a mercê da sorte e esquecidas pelos marajás que governam o Estado.
Uma conversa ligeira com alguns alagoanos, o grupo ficou sabendo que o povoado que deu origem à Maceió surgiu em um engenho de cana de açúcar, por volta de 1600. A origem da palavra Maceió vem da língua tupi, usada pelos índios Caetés que habitavam a região, cujas denominações “maçayó” ou “maçaio-k” quer dizer “aquele que tapa o alagadiço”, talvez pela abundância de águas por todos os lados. Mais tarde, os portugueses modificaram o nome indígena, surgindo o atual nome da cidade: Maceió.
No dia seguinte, fomos visitar o bairro de Jaraguá, que é a própria história de Maceió. Naquele pequeno trecho encravado entre o mar e o Centro da cidade, surgiram os primeiros surtos de desenvolvimento da então vila, que cresceu e superou a capital, a cidade de Marechal Deodoro, provocando a transferência da capital para Maceió, onde já residia o governador da Capitania. O desenvolvimento do bairro Jaraguá deve-se a aproximação do porto, que transformou o local num imenso comercio. Na verdade, graças à proximidade do ancoradouro, o bairro se tornou aos poucos um centro comercial de grande importância, sendo ocupados por elegantes sobrados coloniais, a partir da segunda metade do século passado.
Até pouco tempo atrás, o bairro estava esquecido e se deteriorando com a ação do tempo, mas a arquitetura da época foi sendo restaurada e o projeto de revitalização, executado pela prefeitura em parceria com outras empresas interessadas em preservar a cultura, retornou o esplendor do século XIX. O bairro de Jaraguá ressurge para os alagoanos com a perspectiva de se tornar o mais novo ponto turístico da cidade, com a instalação de bares, restaurantes, galerias de arte, artesanato, cinema e outras atrações. Após o alumbramento com a visita ao Jaraguá, fomos conhecer um pouco da culinária típica alagoana no povoado de Massagueira, às margens da Lagoa Mundaú.
As variedades gastronômicas alagoanas são muitas, entre elas estão presentes peixes, camarões e frutos do mar. O prato mais saboreado é o “sururu de capote”, iguaria pescada nas lagoas que circundam Maceió. Enquanto saboreávamos os pescados, podemos observar várias atividades recreativas náuticas, com lanchas velozes puxando esqui aquático e barcos navegando mansamente, levando turistas para conhecer as sete ilhas que se formam ao longo da imensa lagoa. À noite, fomos degustar os vários sabores das tradicionais tapiocas alagoanas. Segundo tia Terezinha, a mais saborosa era a tapioca feita com recheio de carne-de-sol, mas tinha também tapiocas com quatro queijos, camarão, pizza e doce de goiaba. Próximo às tapiocarias, a famosa “Feirinha de Artesanato da Pajuçara” oferecia lembranças da terra habitada pelos índios Caetés. Apesar do mais famoso artesanato local ser a renda de tradição portuguesa – o filé alagoano – procurada por turistas dos quatro cantos do mundo, Cléo preferiu comprar uma blusa do tipo “ciganinha” alusiva a cidade.
Após um reforçado café da manhã no hotel, pegamos a estrada litorânea para Recife, tendo as paisagens marinhas como companheiras inseparáveis. Entre imensos coqueirais, vilas de pescadores e condomínios fechados de luxo, praias intocáveis como Garça Torta, Cruz das Almas, Praia da Sereia, Paripueira, Coqueiro Seco, Maragogi, entre outras, era garantia de visuais incríveis durante o trajeto. Já em território pernambucano, a praia de Ipojuca exibia cartazes comemorando a instalação da refinaria de petróleo, que aproveitará o porto de Suapé para o escoamento da produção. Pelo retrovisor do carro, ainda vimos algumas faixas com os dizeres: “pode comemorar, a refinaria é nossa”. Chegamos em solo cascudiano com a viva sensação de uma aventura cheia de encantos nas Terras dos Marechais.
|