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Alexandro Gurgel
| alex-gurgel@oi.com.br
| 12/03/2006


Boquinha de Mel e seus versos de cordéis encantados

Quem passa pelo Alecrim, no cruzamento da Avenida Sete com a Avenida Dois (Rua dos Caicós com a Rua Presidente Bandeira) pode ver uma grande banca de camelô na calçada, cheia de folhetos de cordéis. É próximo ao povo que o poeta cordelista Elinaldo Gomes de Medeiros, conhecido no mundo literário com o sugestivo nome de Boquinha de Mel, gosta de vender e declamar seus poemas.

Boquinha de Mel faz versos de cordéis por diletantismo, sua intenção é divulgar a Literatura de Cordel para todas as camadas sociais, resgatando as raízes sertanejas do povo e ajudando a estimular a prática de leitura entre os jovens. O poeta é casado com dona Jaqueline, tem uma filha chamada Juliana e tem como principal objetivo “levar conhecimento àquelas mentes sedentas de informações e também para aquelas calejadas de saber”.

“Se a pessoa não tem dinheiro para comprar meus versos, mesmo assim ela leva os cordéis para casa. Esse ano, minha meta é distribuir 10 mil cordéis gratuitamente. Se essas pessoas passarem os versos para outras pessoas, não há jeito de contar quantos poderão ler”, disse o poeta cheio de entusiasmos.

Há 30 anos o poeta mora no bairro do Alecrim e se diz apaixonado pelo lugar. “Fui uma vítima do êxodo rural. Migrei para a Capital Potiguar com minha mãe aos quatro anos de idade. Nós nos estabelecemos no Alecrim, que nos acolheu muito bem e hoje o bairro é uma das minhas maiores inspirações”, conta o poeta, lembrando com orgulho de Jardim de Piranhas, que teve que deixar por causa da seca.

O poeta confessa que desde muito jovem gosta de poesia matuta, cordel, cantoria, desafio e outros gêneros poéticos, tipicamente do sertão. Fez seus primeiros versos de cordéis por influência das poesias que lia e tentava imitar. Como morador do bairro do Alecrim, o poeta procurou um folheto que tivesse como tema a famosa Feira do Alecrim, mas nunca encontrou. Então, resolveu escrever, em versos de cordéis, sobre as peculiaridades desta tradicional feira natalense.

Seus versos contam a história da feira, que foi criada em 1920 e ainda mantém uma padronização quase medieval. Conforme o poeta, o fundador foi o feirante José Francisco dos Santos, cujos filhos e netos ainda trabalham na feira, mantendo a tradição familiar.

Conforme Boquinha de Mel lembra, em Jardim de Piranhas era comum as pessoas comprarem os versos de cordel na feira e, em casa, aprendiam a ler, além de levar informação à casa do humilde lavrador, pois não havia jornais ou televisão. “As pessoas mais sabidas decoravam os versos para declamar em outros lugares e com isso espalhava a informação para outros povoados”, disse.

Com nove títulos publicados, o cordelista reclama da falta de incentivo financeiro que os órgãos públicos deveriam dar à cultura, já que é uma forma barata de leitura. Boquinha de Mel ressalta orgulhoso por está participando do livro “Dicionário de Cordel”, do folclorista e escritor Gutenberg Costa.

A maioria dos seus cordéis, que são distribuídos gratuitamente, conta as aventuras dos feirantes, personagens preferidos do poeta, entre eles: “A Feira do Alecrim”, “As Aventuras de Juju”, “O Amor de Bosta de Burro e Boca de Fossa”, “As proezas de Chico Tripa”, entre outros.

Com seus versos de cordel circulando pelo mundo, Boquinha de Mel já fez está sendo conhecido no exterior, com livros em vários países da Europa e América do Sul. “Talvez eu seja o único habitante de Jardim de Piranhas com fama internacional”, disse Boquinha de Mel com toda a propriedade que lhe é peculiar. Para adquirir os cordéis, o poeta pede para entrar em contato através do telefone 84 8807-5612.




Boquinha de Mel admite que esteja fundando a “República dos Estados Unidos do Alecrim”, pela diversidade de gente que o local abriga.



| Alexandro Gurgel, Jornalista

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