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Alexandro Gurgel
| alex-gurgel@oi.com.br
| 08/06/2006


A poesia laudatória nordestina nos versos de Gilmar Leite, sob a luz do Romantismo

Vinte anos! derramei-os gota a gota
Num abismo de dor e esquecimento...
De fogosas visões nutri meu peito...
Vinte anos!... não vivi um só momento!

(Álvares de Azevedo)



Mesmo fazendo versos sem ciência do termo "laudatório", alguns poetas nordestinos cantam exaltando a vida, por vezes sofrida, de personagens do cotidiano sertanejo, como se a literatura já fosse inerente n"alma do
vate. O poeta Gilmar Leite, natural do sertão de São José do Egito, cidadezinha pernambucana às margens do Rio Pajeú, em seus versos, canta
uma louvação a uma prostituta que viveu na cidade nos idos de 70, chamada Severina Branca. No tempo em que as meretrizes eram muito pobres
ou de pouca beleza, vendendo o corpo para alimentar seus filhos, muitas vezes de pais que não assumiram, e sem o amparo dos órgãos governamentais, Severina Branca foi a pioneira naquele recanto sertanejo de pouca fartura.


Na voz de Severina Branca, o poeta Gilmar Leite decanta a alma romântica do "eu oprimido", esmagada pela solidão e pela brutalidade do mundo. Uma espessa melancolia se apossa dos seus versos, e por todos os lados vê-se
o lado sombrio e inútil da existência. Ao sentir que os seus vínculos com o mundo foram rompidos, o poeta apega-se no próprio "eu". Um "eu"
incômodo, estranho, que ameaça ora com o caos, ora com o êxtase, ao mesmo tempo, um "eu" angustiado, incapaz de transformar o mundo. O poeta utiliza aspectos da literatura romântica com gritos de subjetividades que confessam seus medos e sofrimentos.

Gilmar Leite verseja a inconformidade do artista romântico com o "mundo cruel" com uma série de procedimentos de fuga, dando voz à Severina Branca, cujo silêncio da noite é a única testemunha daquela vida de muitos pecados. Já que a sociedade não quer escutá-la ou não sabe compreendê-la, já que ela está perdida numa realidade incômoda e brutal, já que sua sensibilidade não possui força para mudar o destino, resta-lhe apenas a tentativa de escapar dessa noite silenciosa, abrindo seu coração
para as amarguras da vida.

Uma das características românticas é o "mal do século", uma "enfermidade moral" e
não física. Resulta do tédio ("ennui", "spleen"), mas não do tédio comum (aborrecimento diante da chatice da vida). A concepção romântica aponta para um aborrecimento desolado e cínico, que ressalta tanto a falta de grandeza da
existência cotidiana quanto o vazio dos corações sem esperanças. Estes acreditam ter
vivido todas as paixões e ter experimentado todos os abismos. Severina Branca cria
uma espécie de sentimento mórbido de insatisfação da vida e de manso desespero, com
a alma machucada de torturas. Algo próximo a sensação de absurdo da vida, quando
Severina roga a Deus para que sua vida seja levada, terminado aquele sofrimento
agourado por aves estrigiformes de hábitos noturnos.

Em contraponto ao presente insatisfatório, o poeta encontra elementos românticos,
constantemente no passado, com versos sublimes, delineando intelectualmente seus valores. Esta condição de mito, onde Severina Branca é ovacionada, obedece a uma tendência de fuga da realidade, pois, de acordo com os ideais românticos, tanto o mundo medieval como o mundo infantil representam o paraíso perdido, uma época de ouro na qual as criaturas seriam felizes. Pela nostalgia de um tempo que os artistas
do Romantismo desconheciam - caso do passado histórico - nega-se o presente, hostil
e causador de sofrimentos, conforme podemos ver na narrativa do poeta Gilmar Leite.

Na poesia romântica brasileira, há grande variedade métrica, de ritmos e de rimas,
indicando a liberdade de composição que os autores experimentam. Gilmar leite começa
a cantar as desventuras de Severina Branca usando um dístico, glosado e rimado em
versos decassílabos. O poeta faz uso intenso de adjetivos, em função de sua força
expressiva e de seu poder de qualificar uma numerosa gama de sentimentos expressos
no peito de Severina. Os adjetivos, segundo os românticos, ampliam ao máximo a
conotação emotiva das palavras, fixando tonalidades e nuanças da natureza e das
paixões humanas.

A saudação aos heróis Dante e Virgílio, criando um vínculo divino entre o poeta e o legado dos antigos aedos, serve como guia para contar a história daquela mulher mitológica, que amargou as horas do ocaso, flamejadas nas manhãs do sertão de
pernambuco. Ao longo do poema, Gilmar Leite usa uma linguagem romântica, deixando a
impressão de nobreza naquele sofrimento sem fim e dando ênfase declamatória à Severina Branca, através de metáforas, hipérboles, alegorias e outras figuras. De alguma maneira, o lirismo desse poeta pernambucano alcançou o grau laudatório dos grandes poetas românticos, conduzindo seus versos para o encantamento, revelado na
voz de Severina Branca.





O silencio da noite é quem tem sido
Testemunha das minhas amarguras


Mergulhei nos abismos infernais
Que nem Dante deu passos com Virgilio
Na Procura de achar algum auxílio
Eu sofri nos subúrbios marginais.
Vi o ocaso nas horas matinais
Entre os braços de estranhas criaturas
Que me abraçavam nas horas escuras
Pra sugar do meu corpo um gemido
O silêncio da noite é quem tem sido
Testemunha das minhas amarguras.



Troquei beijos com bocas amargosas
Sob as luzes de um velho candeeiro
E senti de alguns corpos podre cheiro
Entre as nevoas de noites vaporosas.
Hoje as marcas das dores horrorosas
São sinais dos momentos de loucuras
Machucando minh"alma com torturas
E deixando o meu ser enlouquecido
O silencio da noite é quem tem sido
Testemunha das minhas amarguras.



Inda sinto o tremor das mãos sujas
Afagando o meu corpo pecador
Ao invés do prazer sentia dor
E no meu peito a voz dizendo fujas.
Entre as brechas das telhas as corujas
Agouravam as minhas desventuras
Eu gritava pra Deus lá nas alturas
Leve logo este ser que é tão sofrido
O silencio da noite é quem tem sido
Testemunha das minhas amarguras.



Quantos homens chegavam embriagados
Dando chutes na porta como loucos
Os gentis para mim foram tão poucos
Eram seres tristonhos, reservados.
Eu perdi a noção dos meus pecados
Pela fome com facas de perjuras
Que cortava minha alma com agruras
E sangrava o meu peito já ferido
O silencio da noite é quem tem sido
Testemunha das minhas amarguras.



Sobre a cama meu corpo se tremia
De fraqueza, de fome e de sede;
Noutro canto meu filho numa rede
Quem olhasse pensava que dormia.
Mas a fome causava-lhe agonia
Lhe roubando fagulhas de venturas
Eram cenas cruéis de vidas duras
Condenadas num mundo corrompido
O silencio da noite é quem tem sido
Testemunha das minhas amarguras.



Hoje eu vivo jogada ao relento
Sem um teto sequer para dormir
O passado, o presente e o porvir,
Me jogaram no duro calçamento
Condenada num frio isolamento
O meu corpo só tem as ossaturas
Pra os insetos fazerem aventuras
Ferroando o que já foi consumido
O silencio da noite é quem tem sido
Testemunha das minhas amarguras



www.grandeponto.blogspot.com



| Alexandro Gurgel, Jornalista

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