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Alexandro Gurgel
| alex-gurgel@oi.com.br
| 17/07/2006


Currais Novos, a flor brejeira do Seridó

“O coronel Cipriano Lopes Galvão mandou construir os currais novos numa elevação entre os Rios Maxinaré e Totoró, légua e meia da sua casa-grande. Homem de certo gosto, requintou nos currais troncos de arueira, bem aparados, que adquiriram vasta nomeada, a ponto de virem gentes de longe só para ver os ‘Currais Novos’ do Capitão-Mor. Currais Novos ficou denominada a fazenda, depois a capela, o povoado, a vila, o município, a comarca e a cidade, consagrando-se, de público, a homenagem a uns currais bem acabados, como símbolo do desenvolvimento pastoril daquela região”.
(Luís da Câmara Cascudo. in Nomes da Terra. 2º edição. Sebo Vermelho Editora. Natal RN, 2002)

Encravada no sertão do Seridó, Currais Novos é uma cidade com um potencial turístico ainda para ser lapidado, recheado de histórias e bravura entre índios e colonizadores. O município faz parte do chamado “Roteiro Seridó”, oferecendo várias opções de encantamento para o visitante. Figuras rupestres, minas de shellita, trilhas ecológicas, festa de Sant’Ana, queijo de coalho, entre outros atrativos, fazem de Currais Novos o lugar ideal para aqueles que querem sentir a presença constante das mais legítimas tradições sertanejas.

Currais Novos está localizado na Região do Seridó, a 180 km de distância de Natal, seguindo pela BR 226. O município começou a se desenvolver a partir de 1940, quando foram descobertas grandes reservas de shellita, minério valioso, produzindo uma exploração em larga escala e iniciando o processo de imigração de garimpeiros e comerciantes. Nesse período, destacou-se a figura histórica de Tomaz Salustino que, com seu espírito empreendedor, contribuiu ativamente para o progresso de Currais Novos. Com o advento da shellita a cidade cresceu, sua economia ampliou-se e a população aumentou substancialmente devido à chegada de pessoas que buscavam trabalho e negócio.

De acordo com material arqueológico encontrado na região, o índio já habitava o sertão há oito mil anos atrás. A presença do homem branco na área aconteceu por volta de 1688, quando o Governador Geral do Brasil mandou uma expedição à região com a finalidade de reprimir a revolta dos índios Canindés e Janduís, iniciada no ano anterior, que o Governo da Capitania do Rio Grande do Norte não conseguiu debelar. A expedição, comandada pelo paulista bandeirante Domingos Jorge Velho, atravessou o sertão do Acauã e alcançou a localidade onde nasceu a povoação de Currais Novos, cuja origem está ligada também ao período do Ciclo do Gado.

No livro “Nomes da Terra”, Sebo Vermelho Edições, o historiador Câmara Cascudo afirma que, no ano de 1687, Afonso de Albuquerque Maranhão tinha conseguido derrotar e fazer prisioneiro o chefe dos Canindés. Com o final dos combates, já no século XVII, muitos mercenários, capitães e soldados, passaram a ser lavradores, em sua maioria sem possuírem terras.

Conforme Cascudo, apenas em 1755 o povoamento começou a dar sinais de desenvolvimento com a presença do Coronel Cipriano Lopes Galvão, vindo de Igarassu, Pernambuco, onde casara com dona Adriana de Holanda e Vasconcelos, fixando residência na “Data do Totoró”, estendendo pela região do “São Bento” uma fazenda de gado. “Na bifurcação dos rios Totoró e Maxinaré, confluência de vaqueiros, construiu, em 1760, uma casa e três novos currais, de pau-a-pique com troncos de aroeira, usados para o gerenciamento da criação, compra e venda do gado”, escreveu Cascudo.

O Coronel Cipriano Lopes Galvão morreu em 1764, deixando seis filhos.
O primeiro de seus filhos, o Capitão-Mor Cipriano Lopes Galvão, proprietário do Sítio São Bento, a pedido do pai, constrói uma capela em honra a Sant’Ana, custeando e doando “meia légua de terra”, na ponta da Serra do Catunda, para patrimônio da santa. Em 1808, devido ao desenvolvimento agropecuário, já havia outras famílias de colonizadores fixados na região, constituindo um povoado. Assim, em 26 de julho de 1808, concluída a capela, realizou-se a primeira procissão com a imagem de Sant’Ana (trazida do Recife), levada pelo Capitão-Mor, sua família, criados e amigos, do Totoró até a capela.

O povoado de Currais Novos participou ativamente da campanha abolicionista, com a ação efetiva de um núcleo da Sociedade Libertadora Norte-riograndense, tendo à frente Cipriano Lopes Galvão de Vasconcelos e Joventino da Silveira Borges. A luta abolicionista, que durou vários anos e contou com a participação de muitos, deu resultado: Currais Novos libertou seu último escravo no dia 19 de março de 1988, antes da promulgação da Lei Áurea.

Currais Novos foi Distrito de Paz do município de Acari até o ano de 1890, quando, em 15 de outubro, foi elevado à condição de município autônomo e sua sede, à categoria de vila, sendo instalado a 6 de fevereiro de 1891. Em 29 de novembro de 1920, a vila é elevada à categoria de cidade. Cascudo registra que a origem do nome do município é porque os famosos “currais novos”, construídos pelo Capitão-Mor Galvão, tornaram-se símbolos do desenvolvimento pastoril da região, passando a designar, com o tempo, a fazenda, a capela, o povoado, a vila, e, conseqüentemente, o próprio município.

Os currais que deram nome ao município funcionaram até 1790, também com feiras de gado e vaquejadas, disputas de corridas entre vaqueiros, o divertimento rural dos finais de semana. Após a morte do Capitão-Mor Galvão, as disputas passaram a ocorrer no Sítio São Bento, onde se construiu, em 1830, um pátio de vaquejada. Com o passar do tempo, a vaquejada torna-se uma tradição para o município, atraindo sempre, inúmeros participantes e visitantes, sendo hoje uma das atrações do lugar.

A economia local é baseada na avicultura, agricultura, produção de mel de abelha, produção de leite de gado, extração de rochas ornamentais, ouro e feldspato. O artesanato apresenta trabalhos bem elaborados com pedras extraídas do próprio município, além de confecções de jarros ornamentais e filtros de barro; tapetes de palha; peças de madeira; bordados à mão; ponto de cruz; macramé de renda e ponto paris; fabricação de doces e geléias.

O abastecimento d’água da cidade é garantido através da Adutora de Currais Novos, com captação na Açude Gargalheiras, em Acari. Os principais açudes do município são: Dourado, Totoró e Olho D’água dos Brandão, que juntos somam capacidade reservatória para 30 milhões de metros cúbicos d’água.

O turismo cultural tem ao seu dispor as inscrições rupestres na Lagoa do Santo; os túneis subterrâneos e históricos das minas de shellita, Brehuí e Barra Verde. A beleza da Igreja Matriz de Sant’Ana, a praça Cristo Rei, o Coreto Guarany, o Cruzeiro, o Hotel Tangstênio são locais característicos de Currais Novos, que o visitante não poderá deixar de visitar.

Já o eco-turismo conta com trilhas no Sítio Arqueológico Lagos do Santo, onde poderá visitar a Pedra do Caju, a Pedra do Sino, a Pedra do Navio e o Pico do Totoró, além da Reserva Florestal de São Rafael. As festividades mais importantes do município são: Carnaxelita, Festa Junina, Forronovos e a Festa da Padroeira, Nossa Senhora de Sant’Ana, que ocorre no dia 26 de julho.




| Alexandro Gurgel, Jornalista

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