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Alexandro Gurgel
| alex-gurgel@oi.com.br
| 16/01/2007


Chuva de peitos na festa da Liberdade


Na sua 8ª edição, o "Auto da Liberdade" se reafirmou como o maior espetáculo brasileiro, encenado em palco ao ar livre. Um mega-show disposto a celebrar a história de Mossoró, onde reúnem 2 mil pessoas em cena e 4 mil peças de
figurinos, além de 600 crianças, 70 atiradores do Tiro de Guerra, 30 policiais militares, 300 maçons, 10 cavalos da PM (com montaria) e 60 atores de grupos teatrais da cidade.

A superestrutura do Auto da Liberdade foi montada na Estação das Artes Eliseu Ventania para encenar o pioneirismo mossoroense de Celina Guimarães, primeira mulher a ter direito ao voto direto no Brasil; da abolição da escravatura, em
30 de setembro de 1983; e da resistência ao bando do cangaceiro Lampião. O motim das mulheres, movimento contra o alistamento de jovens na cidade, rende uma bela coreografia com panelas reluzentes em mãos hábeis das bailarinas,
cuja indumentária trazia a histórica notícia impressa em jornais daquele tempo.

Cuspidores de fogo, palhaços, acrobatas e trapezistas foram destinados ao ponto alto do espetáculo, em cenas que deveriam remontar a libertação dos escravos mossoroenses. Mas, o que se viu foi um palco circense sem analogia
com as lutas abolicionistas da época. O renomado diretor teatral, Marcelo Flecha, buscando trazer a comunidade para o protagonismo, discrepou do texto de cordel original, escrito pelo jornalista Crispiniano Neto, especialmente para o
espetáculo.

A boa concepção do diretor é observada com a introdução da peça teatral "Chuva de Balas no País de Mossoró" dentro do Auto da Liberdade, proporcionando o resgate da resistência dos bravos mossoroenses numa versão compacta e cheia de movimentação. Embora seja conhecida a verve libertária do povo mossoroense, a
apelação entrou em cena mostrando meninas com os peitos de fora, fazendo um topless desnecessário para a dramaturgia. Era o momento preferido pelos fotógrafos, que se digladiavam com suas objetivas, procurando o melhor ângulo
em meio a uma chuvarada de seios.

Com investimento acima de R$ 2 milhões na Festa da Liberdade, incluindo o Auto e o Cortejo, a Prefeitura de Mossoró envolveu toda a comunidade com uma programação paralela, através de seminários, shows culturais, oficinas
literárias, exposições, desfile cívico e atividades
esportivas.

Apesar de chamar a atenção da imprensa do sul do país, o Auto da Liberdade não conseguiu atrair um número de turista suficiente para preencher as vagas na rede hoteleira, como acontece durante o período junino. Com uma tradição teatral inata, o povo mossoroense saberá encontrar a fórmula ideal para prender a emoção do espetáculo com arte, deixando de lado elementos apelativos
que nada acrescentam ao drama.


| Alexandro Gurgel, Jornalista

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