As proezas do Capitão Brito - Parte III: Na trilha dos tesouros

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A marujada acordou cedo no segundo dia na ilha. Após um café da manhã com iguarias insulares, o Capitão Brito reuniu seus recrutas para analisar o mapa. Decidiram traçar um itinerário em busca do tesouro, através de um “Ilha Tour”, um passeio de reconhecimento em torno da ilha. Às 8:00 horas em ponto, montado num possante buggy, um marujo parelhense veio nos buscar para passar um dia inteiro explorando as principais praias de Fernando de Noronha.
No início da missão exploratória, foi feito uma parada estratégica para encher os cantis com água para aliviar a sede durante o trajeto. Adentramos no Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha. Durante o caminho, o parelhense nos falava que as praias da ilha estão divididas em dois lados: o do Mar de Dentro, voltado para o continente e o do Mar de Fora, voltado para o Atlântico.
Ao longo de uma trilha estreita, o grupo se deparou com a Baía dos Golfinhos, a mais notória atração da ilha. Essa baía é local de acasalamento e descanso dos golfinhos, sendo considerada “o maior aquário natural do mundo em animais dessa espécie”. Os golfinhos rotadores podem ser vistos do alto da Baía, no Mirante dos Golfinhos. Ao longo da trilha, éramos acompanhados por pequenas mabuias, uma espécie endêmica de lagartixa, só encontrada na ilha.
Um pouco mais de dolorosas caminhadas, chegamos à Baía do Sancho, um mirante natural de águas límpidas. Isolada, limitada por uma falésia acentuada, é uma das poucas baías que permite a parada de embarcações para banho, sem causar danos aos corais. O acesso à Baía do Sancho só pode feito através de barcos ou pelas escadas encravadas dentro de uma fenda na rocha, com uma abertura, de onde se descortina o mar, complementada por degraus nas pedras, descendo até a areia alva.
Depois de um ligeiro descanso, o buggy seguiu pela BR 363 (a menor BR brasileira, com 7 km de extensão) e parou na Baía do Sueste, de mar calmo e ondas suaves. A Baía do Sueste é uma região histórica, onde desembarcou, em 1629, a esquadra brasileira que retomou o Arquipélago das mãos dos holandeses. É um porto opcional para as épocas em que acontecem as ressacas no Mar de Dentro.
Guardando a baía, à esquerda, estão as ruínas no Forte de São Joaquim do Sueste. Junto ao mar, o único mangue em ilha oceânica, uma raridade ecológica. Usando um snorkel (mascara de mergulho e respirador) o grupo viu peixes coloridos de várias espécies, apesar da água ser muito turva, aparentemente por causa de algas que alimentam as tartarugas marinhas, em abundância na Baía do Sueste. A trupe de exploradores preferiu não enfrentar uma fila para visitar a praia de Atalaia (somente trinta pessoas podem permanecer na praia, exigência permanentemente controlada pelo Ibama).
Um teju arredio foi visto fugindo de alguns cachorros nas areias do Sueste. O teju, um lagarto encontrado em toda a América do Sul, foi introduzido na década de 60 em Fernando de Noronha para diminuir a quantidade de ratos e sapos. De acordo com biólogos do Ibama, acabou se alimentando de ovos e filhotes de tartarugas-marinhas, além de atacar ninhos de aves, tornando-se um problema para a ilha.
O sol a pino do meio-dia avisava que era a hora de todos se recolherem para almoçar e planejar novas investidas em busca do tesouro do Capitão Kidd. Voltamos à Vila dos Remédios, onde almoçamos no Restaurante do Biu, um cardápio comum: feijão, arroz, farofa, carne de sol, peixe e salada de verdura. Pouco depois da sesta, partimos no buggy para novas aventuras.
A primeira parada foi num lugar chamado Buraco da Raquel, região pedregosa, que tem seu nome tirado de uma enorme pedra à beira-mar, com grande cavidade, rodeada de piscinas rasas, cheias de peixes coloridos. A descida é proibida, pela suposição de que aí está um dos celeiros de vida marinha que merecem ser preservados. O nome “Raquel” é atribuído à filha de um dos comandantes militares que, em crise, ali costumava esconder-se. Junto dali, a enseada de Caieiras. Como toda excursão, paramos numa loja, Tubalhau, que além de camisetas e bijuterias, vende bolinhos feitos de carne de tubarão.
Seguimos para a Praia do Leão, uma das praias mais bonitas do Brasil. Longínqua, situada além do Açude Xaréu, seu nome vem da enorme pedra que se assemelha a um leão-marinho deitado. Ao seu lado, outra formação rochosa, o Morro da Viuvinha, abrigando incontáveis ninhos de viuvinhas (passo em abundância na ilha). No alto, as evidências construtivas do Forte do Bom Jesus do Leão, com 13 canhões semi-enterrados. É a praia onde mais ocorre desova de tartarugas. É área de Parque com controle rigoroso permanente. Nos períodos de desova, ninguém desce à praia após às 18h00.
Em seguida, fomos à praia de Cacimba do Padre, uma das maiores praias da ilha em extensão e tem, como atração maior, o Morro Dois Irmãos, duas elevações semelhantes, à beira d"água. O nome primitivo era Praia da Quixaba. A descoberta de uma fonte de água potável, em 1888, pelo capelão do presídio, fez com ela passasse a ser chamada de Cacimba do Padre. Na parte alta, ficava a Vila da Quixaba, com a capela de Nossa Senhora da Conceição. Um caminho antigo, em pedras, levou os caminhantes à Praia do Bode, onde uma pedra de grandes dimensões (a Pedra do Bode) serve como mirante.
Seguindo por um acesso difícil, entre pedras escorregadias, cegamos à Baía dos Porcos, uma área de pequenas proporções, lindíssima, quase sem extensão de areia. A baía é formada por pedras que são verdadeiras piscinas de peixes coloridos, limitadas pelo alto paredão de pedras pretas e, em frente, o Morro dos Dois Irmãos. Na parte alta, está localizado o Forte de São João Baptista dos Dois Irmãos, a última fortificação deste lado da ilha. Enquanto caminhávamos pela beira da praia, vários atobás mergulhavam em busca de sardinhas.
No final da tarde, deixando de lado o mapa do tesouro, o Capital Brito levou seus marinheiros para assistir ao pôr-do-sol nas ruínas do Forte de São Pedro do Boldró, uma fortificação do século XVII, no alto da falésia que separa a praia do Boldró da praia do Americano. Tendo no horizonte o Morro Dois Irmãos, o sol caiu mansamente para delírio de vários grupos de exploradores, testemunhas de um dos mais belos crepúsculos na ilha.
Já era noite quando voltamos para o lugar de pouso com a leve sensação de que o tesouro do Capitão Kidd estava cada vez mais próximo. Depois de um banho demorado para tirar o laivo de poeira vulcânica do corpo, causados pelas estradas empoeiradas que ligam uma praia à outra, durante o trajeto de buggy, o grupo jantou em Vila dos Remédios e voltou para uma noite de sono profundo, recarregando energias para outro dia de intensas caminhadas em volta de Fernando de Noronha.
Continua...
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