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Alexandro Gurgel
| alex-gurgel@oi.com.br
| 03/06/2007


Pássaro raro é observado no centro de Natal


O urutau é um pássaro raro, conhecido como ave-fantasma, é um dos pássaros mais cultuados na literatura fantástica. Ele também aparece em lendas, poesias e raramente é observado na área urbana. Espécie em extinção, o urutau existe há pelo menos 20 milhões de anos, muito antes do “Homo sapiens” surgir na Terra.

O urutau foi observado essa semana na área urbana de Natal, em pleno centro da cidade, no final da tarde. A ave estava imóvel, no alto de um velho poste, na praça Senador Guerra, localizada por trás da Igreja do Galo. Quando essa ave surge na área urbana causa estranheza tanto pelo fato de ser espécie noturna, como por sua aparência: tem cabeça larga e achatada, bico e pernas pequenas, enormes olhos e penas com coloração especial para a camuflagem.

É a primeira vez que o urutau é fotografado no centro da capital potiguar. De acordo com David Hasset, membro do Grupo Ornitológico Potiguar, a última aparição dessa ave na área urbana natalense foi no ano passado, quando o urutau foi observado nas matas do Parque das Dunas, nas imediações da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, mas ninguém conseguiu captar imagens.

Segundo David Hasset, o avanço das cidades sobre as áreas rurais é que acaba interferindo no local de habitação dos animais silvestres, é também um dos fatores que leva ao aparecimento de aves tão exóticas como o urutau em áreas urbanas. “É possível que esse exemplar do urutau habite as matas de mangue no Rio Potengi, já que é uma área muito próxima de onde o pássaro foi observado”, explicou.

Depois de analisar as fotografias, o ornitólogo afirmou que se trata de uma espécie brasileira das mais comuns: o “Nyctibius griseu”, que vive tanto nas florestas densas quanto nas bordas de mata, capoeiras e até mesmo em árvores isoladas das grandes cidades. Conforme David, o urutau pertence à família da coruja e é um primo distante do bacurau por ter hábitos parecidos.

“É muito difícil ver essa ave porque ela não voa com facilidade e depende da camuflagem para se proteger dos predadores”, disse o ornitólogo, ressaltando que o bacurau se camufla no chão ou numa toca, enquanto as corujas procuram torres de igrejas e copas de árvores para esconderijos. Conforme David Hasset, o urutau é uma ave rara porque para se camuflar procura uma extremidade de um galho, se adaptando de uma forma que se toma o aspecto de prolongamento do galho.

Possui a cabeça chata, olhos grandes e vivos, a boca rasgada de tal maneira que seus ângulos alcançam a região posterior dos olhos. Sua cor é parda acanelada. Isso lhe permite adaptar-se a cor do galho onde pousa. Esse seu disfarce associado a sua perfeita imobilidade o protegem da vista dos caçadores. O urutau não constrói ninho. No período de reprodução, depositam um único ovo em alguma forquilha de galho grosso a grande altura ou numa cavidade natural de seu poleiro noturno, onde permanecem em atividade de choco.

O urutau habita o Norte e Nordeste da Argentina, as matas do Paraguai, o Norte do Uruguai e no Brasil, onde toma vários nomes: “jurutaui” na Região Amazônica; “ibijouguaçú” entre os tupis e “Mãe da Lua” entre os mineiros. “O urutau é uma ave noturna que, em noites de luar, desliza nas alturas, entretendo-se em perseguir e devorar mariposas e besouros”, completou David Hasset.


Mitos de um pássaro mágico

Segundo o ornitólogo, o grito do urutau é um “hu-hu-hu”, que se faz ouvir após o anoitecer, quando a ave procura a solidão mais espessa das matas, de onde faz solta um assobio de profunda lamentação. Para alguns, parece semelhante ao lamento de uma mulher. Em outras pessoas, o canto do urutau provoca espanto e piedade aos que possam ouvi-lo.

A quase invisibilidade do urutau confere-lhe o caráter de um ente misterioso. Muitos não o tomam por uma verdadeira ave, senão por um ser fantástico, inacessível à mão e aos olhos humanos. Já outros, porém, não duvidam de sua existência, mas consideram-no como um ente enigmático e superior, dotado de muitas qualidades fora das leis naturais, entre elas, a de preservar a pureza das moças.

As qualidades sobrenaturais deste pássaro se destacam nas crendices populares. As penas e a pele do urutau são milagrosas. Conta-se que antigamente, matavam um urutau e tiravam-lhe a pele. A pele seca servia para assentarem as filhas das famílias influentes, nos três primeiros dias, do início da puberdade. No término deste tempo, a jovem saía “curada”, isto é, invulnerável à tentação das paixões desonestas que pudessem surgir.

Apesar de seu grito de lamentação, o urutau não era tido entre os indígenas como uma ave de mau agouro. Conta-se que os tupinambás consideravam o canto desta ave como saudações de antigos parentes mortos que gritavam para excitá-los à guerra contra os inimigos.

Lenda sertaneja do urutau

Numa humilde casinha do sertão, vivia com seus pais uma moça muito feia. Naturalmente, por causa disso, não conseguia arranjar um namorado. O tempo passava, suas amigas todas se casaram e ela continuava desprezada.

Mantendo ainda alguma esperança de que lhe surgisse um pretendente - pois, afinal, tinha suas qualidades: inteligente, trabalhadeira e boa cozinheira - adquiriu o hábito de sair à noite para passear pelos campos e bosques.

Certa vez, em um desses passeios, ouviu o ruído de um cavalo que se aproximava. O coração aos pulsos, imaginou que ali vinha o homem que se casaria com ela. Em poucos segundos viu descer de um cavalo ricamente arreado, um belo e garboso cavaleiro, um príncipe que se aproximou e perguntou-lhe como podia chegar à estrada principal.

A moça, habilmente, procurou cativar o príncipe pela gentileza e ofereceu-se para acompanhá-lo. Apesar de feia, era muito inteligente e foi fácil manter uma conversa agradável com o príncipe que, impressionado e não lhe percebendo a feiura, pois não havia luar, pediu-a em casamento.

Mas infelizmente, sua felicidade durou pouco. A lua surgiu, iluminando o rosto da jovem. O príncipe, tomado de grande espanto, inventou uma desculpa para se afastar e se foi. A jovem, que de nada suspeitava, ficou esperando o seu regresso.

Muito tempo depois, uma feiticeira sua conhecida, ia passando e parou para conversar. A moça contou a ela o que acontecera e pediu para ser transformada numa ave e, assim, poder encontrar logo o príncipe. A feiticeira não queria, mas a jovem insistiu tanto que ela acabou concordando.

Partiu, então, a jovem, transformada numa ave feia e desajeitada. Percorreu toda a região por várias vezes e nada de avistar o príncipe, que àquela altura, já estava bem longe.

Desolada, a ave - que era o urutau - procurou a bruxa e pediu para voltar à forma humana. Esta, porém nada pode fazer e a pobre teve que se conformar com seu destino de ave feia e triste.

É por isso que, quando a lua aparece, o urutau solta aquele grito triste que parece dizer “foi, foi, foi”, lembrando o príncipe que fugira da moça feia. Por essa razão, o urutau também é conhecido como Mãe da Lua.




alex-gurgel@oi.com.br



| Alexandro Gurgel, Jornalista

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