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Alexandro Gurgel
| alex-gurgel@oi.com.br
| 09/08/2007


Assis Marinho, o gênio maldito da arte potiguar


Eu, o bobo da corte
Menino vadio
Perambulador
Sorrio da vida
Me afogo na dor...
(Dunga)

Ele tem o cheiro do mar e o gosto de sertão entranhado n’alma, como se vaqueiros e pescadores se juntassem em festa num boteco qualquer no Beco da Lama para celebrar a vida. Dessa mistura agrestina surge a arte de Assis Marinho, imagens barrocas na lembrança dos anos vivenciados entre secas no sertão do Seridó e a brisa marinha da Redinha.

Nascido na cidade de Cubati, nas brenhas da Paraíba, Assis Marinho veio para o Rio Grande do Norte com a família quando ainda era menino, começando uma peregrinação para fugir das mazelas provocadas pelas constantes secas. Retirantes em sua própria terra, a família Marinho buscou aconchego no chão seridoense, ficando residência.

O velho Walfredo Marinho, seu pai, fazia santos de madeira e barro para vender nas feiras-livres do interior, enquanto entoava uma velha sanfona, chamando a atenção do freguês. Sua mãe, Luzia Jacinto de Medeiros, ficava em casa cuidando da prole, dos afazeres domésticos e até de uma rocinha no oitão, onde crescia feijão e macaxeira.

Perambulando de cidade em cidade, o menino Assis começa a rabiscar as imagens do cotidiano desse povo sertanejo, retratando personagens que se identificavam com seu próprio drama. “Já sofrido por anos de seca, conheci as amarguras da fome de forma miserável. Desenhando nas feiras das cidades vizinhas, aumentava um pãozinho a mais em nossa mesa", ressalta Assis com os olhos marejados quando falava sobre sua família.

Numa conversa franca, no bar de Zé Reieira, adjacências do Beco da Lama, Assis disse que sempre teve vocação para a pintura desde os cinco anos de idade, embora nunca tenha freqüentado uma escola de pintura. Sua maior convivência artística e profissional foi dentro do atelier do artista plástico e professor de artes na UFRN, Vicente Vitoriano. Num local reservado no bar, o artista pintava a cena da Última Ceia, com Cristo rodeado por pescadores e vaqueiros, enquanto conversava.

Sobre Assis, o próprio Vicente Vitoriano escreveu no livro livro “Introdução à cultura do Rio Grande do Norte”, editado pela Grafset, em 2003: “O pintor Assis Marinho tem construído uma obra baseada no registro de cenas hodiernas das pessoas simples do interior em seu trabalho e em suas festas. Como Newton Navarro, Assis Marinho adapta para o contexto sertanejo ou praieiro temas religiosos como São Francisco e a Ùltima Ceia”.

Assis Marinho já ganhou alguns prêmios em sua carreira, realizou várias exposições, individuais e coletivas, mas prefere vender seus quadros pessoalmente. No último concurso de arte que participou, o “Salão de Artes” promovido pela Fundação Capitania das Artes, o quadro de Assis não foi classificado e ele ficou visivelmente aborrecido. “Pintei um quadro com os três Reis Magos nordestinos. Um era pescador, outro um agricultor, e o terceiro, um vaqueiro. O trabalho nem foi classificado entre os 20 melhores. O problema era que a comissão julgadora era formada por artistas daqui de Natal”, critica.

Assis Marinho é um eterno menino do sertão, apaixonado pelo Seridó norte-riograndense. Sua arte mostra exatamente essa vertente interiorana, poeticamente sertaneja. Para Iaperi Araújo, membro a Associação Brasileira de Críticos de Arte, Assis Marinho tem demonstrado um aperfeiçoamento e uma simplificação cada vez maior no sentido de adequar sua mensagem à nossa realidade. “Seus trabalhos, de intensa dramaticidade, exploram o traço do desenho como pintura; recriados em insistentes momentos, como se o artista, ao reforçar o traço que descreve no papel a violência de sua mensagem, desejasse gritar pelos seus personagens”, anotou Iaperi Araújo.

Segundo o artista plástico e escritor Dorian Gray Caldas, no livro “Artes Plásticas do Rio Grande do Norte”, editora Universitária - UFRN, Assis Marinho, nestes últimos anos de seu trabalho artístico, quase nada mudou. O artista continua utilizando a mesma técnica com lápis, cera ou aquarela e as mesmas figuras, unindo uma determinação de recriar as origens vividas entre o rio e o mar. “Sua pintura fixa de preferência os pescadores, feirantes, catraieiros, mangaieiros, barqueiros, numa biotipologia fantástica e de surpreendentes efeitos realistas”, relata Dorian Gray nas suas observações sobre o artista.

É verdade que Assis nunca esculpiu um santo em madeira ou barro, mas sua herança santeira estampa seus quadros com São Francisco, Santo Antônio, Jesus e seus apóstolos embriagados de ternuras. Como nos versos do poeta Dunga, Assis é o bobo maldito de uma corte de artistas geniais, onde seu traço expressionista o ajuda a sufocar a aflição da vida, através de suas obras feitas com sensibilidade.


Dentre algumas exposições individuais e coletivas no RN e em outros Estado, as principais foram:

Galeria do Povo - Mostra Livre - Natal/RN - 1977;
Prêmio de pintura Newton Navarro - Galeria de Arte da Biblioteca Pública Câmara Cascudo - Natal/RN - 1979;
16 Artistas Potiguares - Galeria de Arte Lula Cardoso Aires - Palácio Capibaribe - Cais do Apolo - Recife/PE - 1982;
Museu de Arte Comtemporânea - MAC - São Paulo/SP - 1983;
Mostra Livre Praça da República - São Paulo/SP - 1979;
Casa da Cultura de Votuporanga - Votuporanga/SP – 1979.





| Alexandro Gurgel, Jornalista

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