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Alexandro Gurgel
| alex-gurgel@oi.com.br
| 20/09/2007


Padre Cícero, o Santo do Nordeste


Nessa primeira quinzena de setembro, Juazeiro do Norte, a 528 quilômetros ao Sul de Fortaleza, torna-se a Capital da Fé para o povo nordestino, onde milhares de romeiros vão louvar bênçãos à Nossa Senhora das Dores, padroeira do Município. Em pelo menos outras três ocasiões, Juazeiro do Norte torna-se o centro da religiosidade popular: 24 de março (data de nascimento de Padre Cícero); 20 de julho (falecimento de Padre Cícero); e 2 de novembro (Dia de Finado).

A fé no Padre Cícero Romão Batista, tido como o Santo do Nordeste, faz com que anualmente milhares de nordestinos se desloquem para a cidade cearense para reverenciarem o seu santo protetor. Muitos vêm “pagar” promessas ou graças alcançadas, que, segundo eles, ocorreram por interseção do Padre Cícero e que não seriam curadas ou resolvidas pelas atitudes humanas.

Os festejos atraem mais de dois milhões de romeiros por ano, fazendo de Juazeiro do Norte um dos maiores pólos de peregrinação religiosa do País. Em Juazeiro do Norte, Padre Cícero é nome de rua, praça, sapataria, armazém, posto de gasolina, empresa de ônibus, concessionária de veículo, funerária, escola, etc. Não é para menos. Ali, o religioso viveu durante 62 anos e transformou-se num verdadeiro mito, atraindo os romeiros que não poupam sacrifícios para agradecer aos milagres recebidos.

O principal ponto de visitação da cidade é a Serra do Horto, onde estão a estátua do Padre Cícero, medindo 25 metros de altura, o Museu Vivo da Cultura Popular Nordestina, o Santo Sepulcro, a Muralha da Guerra de XIV e a Via-Sacra. O Santuário do Coração de Jesus, a Igreja Matriz Nossa Senhora das Dores e a Capela Nossa Senha do Perpétuo Socorro são outros pontos turísticos visitados pelos peregrinos. O Memorial do Padre Cícero abriga um acervo de fotos e objetos relativos à vida do padre.

Situada na chapada do Araripe, região do Cariri, Juazeiro do Norte é a segunda maior cidade do Ceará em capacidade econômica. Além dos aproximadamente 250 mil habitantes, milhares de fiéis visitam Juazeiro do Norte para participar das festividades à Padre Cícero Romão Batista, injetando dinheiro na cidade e movimentando o comércio. A confecção, o comércio varejista, a rede hoteleira e o comércio de artigos religiosos relacionados ao Padre Cícero são as bases das atividades econômicas da cidade.

A canonização popular

Frei Galvão é o primeiro santo brasileiro a ser canonizado pela Igreja Católica, mas dificilmente alcançará a dimensão para ser considerado como uma unanimidade nacional. Excetuando os paulistas, especialmente os do município de Guaratinguetá (terra do santo), poucos católicos tinham ouvido falar em Frei Galvão até a última fase do processo da sua canonização. Proclamado santo pelo povo nordestino, o padre Cícero Romão Batista, Padim Ciço, como é chamado pelos romeiros, ainda não teve a santidade reconhecida pela Igreja Católica.

Enquanto os processos de canonização de Padre Cícero se arrastam por falta de milagres, a perseguição ao Padre Cícero se deu justamente por causa de um milagre, que foi posto em dúvida. Numa capela de Juazeiro do Norte, uma beata chamada Maria de Araújo recebeu um hóstia do padre Cícero, que teria se transformado em sangue ao ser colocada em sua boca. A hóstia havia sido consagrada pelo próprio padre. O fato repetiu-se outras vezes, e o clero cearense negou a veracidade do fato, acusando o padre e a beata de “farsantes”. O processo foi levado à Roma e o Padre Cícero foi punido, sendo retirado os direitos de sacerdote até sua morte.

De nada adiantou a postura rígida da Igreja Católica. A pé, a cavalo, em caminhões pau-de-arara, de ônibus ou avião, milhões de peregrinos visitam a chamada “Roma Nordestina” todos os anos. Os devotos vão aos lugares sagrados e pagam promessas. As casas de milagres não comportam os ex-votos trazidos como testemunho das graças alcançadas.

Para os romeiros, a Santíssima Trindade é composta por Padre Cícero, Nossa Senhora das Dores e o Divino Espírito Santo. A religiosidade popular produziu uma teogonia (doutrina mística relativa ao nascimento dos deuses) própria, um culto em que a figura principal é o Padre. Os outros santos da Igreja Católica também são reconhecidos e adorados, mas nenhum supera o “Padim Ciço”.

Padre Cícero, o homem político

O lendário bastão do Padre Cícero não servia apenas para guiá-lo, mas também para apontar as regras políticas da região. O religioso ocupou o cargo de prefeito de Juazeiro durante 12 anos. Em 1914, foi nomeado vice-governador do Ceará e, em 1926, elegeu-se deputado federal. “Mas eram seus secretários que governavam. Ele não tinha tempo nem querença pelo poder”, afirma o biógrafo Geraldo Menezes Barbosa, que conviveu com o padre até os dez anos de idade.

Fraco e quase cego, embora sempre lúcido e atendendo os romeiros, Padre Cícero morreu a 20 de julho de 1934. Desde então, no dia 20 de cada mês, a população de Juazeiro do Norte se veste de preto em sinal de luto a seu patriarca e eterno conselheiro.

Um fato curioso é que Padre Cícero recebia vários presentes dos fiéis como papagaios, araras e até urubus. O presente mais pitoresco foi um boi de raça estrangeiro, que colocou no curral próximo de casa. As beatas enfeitavam o boi e colocaram fitinhas nos chifres. Uma senhora doente chegou a beber a urina do animal na tentativa de curar-se. Vendo os excessos dos devotos, Padre Cícero mandou abater o boi e botou a carne à venda. Ninguém comprou.

Padre Cícero é o maior benfeitor de Juazeiro do Norte e a figura mais importante da história do município. Foi ele quem trouxe para Juazeiro as Ordens dos Salesianos e dos Capuchinhos; doou os terrenos para construção do primeiro campo de futebol e do aeroporto; construiu as capelas do Socorro, de São Vicente, de São Miguel e a Igreja de Nª Sª das Dores; incentivou a fundação do primeiro jornal local (O Rebate); fundou a Associação dos Empregados do Comércio e o Apostolado da Oração; realizou a primeira exposição da arte juazeirense no Rio de Janeiro; incentivou e dinamizou o artesanato artístico e utilitário, como fonte de renda; incentivou a instalação do ramo de ourivesaria; estimulou a expansão da agricultura, introduzindo o plantio de novas culturas; contribuiu para instalação de muitas escolas, inclusive a famosa Escola Normal Rural e o Orfanato Jesus Maria José; socorreu a população durante as secas e epidemias, prestando-lhe toda assistência e, finalmente, projetou Juazeiro no cenário político nacional, transformando um pequeno lugarejo na maior e mais importante cidade do interior cearense.







| Alexandro Gurgel, Jornalista

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