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Alexandro Gurgel
| alex-gurgel@oi.com.br
| 07/10/2007


Coluna de Alexandro Gurgel: Nas pegadas dos dinossauros


Os vestígios deixados pelos animais pré-históricos são as maiores atrações do município de Sousa, localizado no alto sertão paraibano, a 430 quilômetros de João Pessoa, e fazem parte do cotidiano dos seus 80 mil habitantes. As fachadas das lojas comerciais têm dinossauros desenhados e outros lugares fazem referência aos animais como Praça dos Dinossauros, Boate Rocksauro ou Churrascaria Mastodonte.



Sousa abriga um dos mais importantes sítios paleológicos do mundo, o “Vale dos Dinossauros”, localizado no leito do Rio do Peixe, onde podem ser observadas pegadas deixadas por animais pré-históricos há mais de 130 milhões de anos e que chegam a medir meio metro cada uma, formando uma fileira de 53 pegadas.



Em meio a juremas-pretas, xique-xiques e algarobas, o Vale dos Dinossauros compreende uma área de mais 700 km2 ao longo do Rio do Peixe. As primeiras pegadas encontradas estão na localidade de Passagem das Pedras, deixadas por iguanodonte, um semi-bípede que pesava 3 toneladas. Há vestígios também do temido tiranossauro rex e de um pterodáctilo. Cientificamente reconhecido como um dos lugares mais importantes para realização de estudos paleontológicos, o Vale dos Dinossauros atrai estudiosos de todas as partes do planeta.



Ocupando uma área de 40 hectares dentro do Vale dos Dinossauros, a prefeitura municipal de Sousa criou um modesto museu onde há réplicas de pegadas, mapas e maquetes que mostram a formação do solo, administrado por Robson Marques desde a sua fundação, figura pitoresca conhecida como “Velho do Rio”. “Minha mãe falava que eram rastros de lobisomem e me passava tanto medo que nunca fui lá. Só voltei quanto grande”, conta Robson Marques, que também é neto de Anísio, o descobridor das pegadas.



A descoberta do sítio arqueológico



O Velho do Rio conta que, no ano da graça de 1897, algumas vacas tinham fugido para a caatinga e seu avô, Anísio Fausto da Silva, saiu à procura dos animais no meio do mofumbal. “Na Passagem das Pedras, ele observou uma trilha de grandes e pequenas pegadas ao longo do rio seco e pensou que eram rastros de boi e ema. E foi assim que meu avô descobriu as pegadas”, relata.



De acordo com Robson Marques, em 1924, Luciano Jaquis de Morais, um geólogo mineiro que trabalhava na extinta Inspetoria de Obras Contra a Seca, ouviu a fantástica historia e resolveu conhecer as pegadas. De imediato, o geólogo percebeu que não se tratava de pegadas de boi, ema ou lobisomem, então pegou sua velha máquina fotográfica e fez vários registros, enviando para um laboratório de pesquisa na Inglaterra.



A resposta veio rápida, dando notícias de que as fotografias eram rastros de dinossauros do período Cretáceo (110 milhões de anos atrás), em perfeito estado de conservação. Depois da confirmação da descoberta, se iniciou uma grande peregrinação de cientistas americanos e europeus ao local. “Eles chegaram a recortar duas pegadas, uma em 1924 e a outra em 1930. Levaram para pesquisa e não devolveram mais”, ressaltou Robson.





As pegadas despertaram também a curiosidade dos brasileiros. Atualmente o sertão da Paraíba é uma das principais regiões de pesquisas sobre os dinossauros do Brasil, com importantes sítios arqueológicos e paleontológicos. Somente na vizinhança de Sousa são 21 sítios, com mais de 330 ocorrências de fósseis, pinturas rupestres e outros vestígios. Alguns locais já entraram nos roteiros oficiais do turismo ecológico.



Protegidas por uma contenção de concreto – que devia o Rio do Peixe na época da cheia para que não passe mais sobre as trilhas – as pegadas podem ser vista a partir de passarelas de observação. Os rastros de estão em uma trilha composta de 53 pegadas, de 50 centímetros. “A disposição das pegadas sugere sinais de luta entre eles, embora as pegadas possam ser de épocas diferentes”, alerta o administrador do Vale.



Conforme o Velho do Rio, na região de Sousa existem muitos sítios arqueológicos, a maioria descoberta por Gioseppe Leonardi, paleontólogo e padre italiano, que em 1975 aportou na Paraíba. “A gente ficava três a quatro dias fora, ele sempre pedia informações a vaqueiros e caçadores, atrás de eventuais pistas. Levávamos dois pãezinhos por dia – um para cada – e um cantil com água. Ás vezes quando a fome apertava, eu fazia uma mistura de feijão, arroz, tripa e mocotó”, recorda Robson Marques.



O Velho do Rio contou que passa boa parte do tempo cavando a terra e examinando pedras, em busca de novos vestígios de dinossauros. Com persistência e dedicação acabou descobrindo, no final de 2004, novas pegadas de carnossauros, alguns quilômetros abaixo da trilha principal do iguanodonte, no Rio do Peixe. E resumiu assim a descoberta: “Cada nova pegada me fazia sentir como se estivesse descobrindo um mundo. Fiquei viciado nisso. Sempre digo ás pessoas: o que seria do universo sem nós, os cândidos malucos?”.




| Alexandro Gurgel, Jornalista

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