Um Pedro Peralta na Esquina do Continente

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Com 30 anos de carreira, quatro CDs gravados (Esquina do continente, Um Pedro a Mais, Cantam-me e Canto-os), Pedro Inácio Filho soube cantar as belezas natalenses como nenhum outro músico. Escrita há duas décadas, "Linda baby" tornou-se um verdadeiro hino a Natal. A música está na ponta da língua de cada natalense que canta com brio sua terra. “Linda Baby é o hino extra-oficial da cidade”, diz orgulhoso.
Nascido em Parnamirim, no ano da graça de 1963, Pedrinho é filho de um oficial da Aeronáutica, que serviu em várias cidades brasileiras, mas fixou residência em Natal, a Rua Mendes Sá, no Barro Vermelho. Apesar de o seu pai ser músico de carreira, Pedrinho Mendes é um autodidata confesso. Aos 10 anos, o menino Pedrinho ganhou um violão do seu pai e logo tomou gosto pela música.
Aos 14 anos, colocou o violão na mochila para morar em Fortaleza, indo estudar num colégio militar, no qual fez parte da banda marcial estudantil e ao mesmo tempo, começou a compor seus versos. Três anos depois, Pedrinho retornou a Natal onde começou a tocar na noite, em bares da moda como o Beco da Música, ao lado de Chico Elion. Em 1980, Pedrinho já era uma figura concorrida nas noites natalenses, trabalhando profissionalmente nos melhores barzinhos.
Por volta de 1982, no ápice do bar Boca da Noite, o músico relembra que passou de Pedro à Pedrinho. Antes disso, jamais tinha sido chamado de Pedrinho. Pelo contrário. Por causa dos seus quase dois metros de altura, sempre foi chamado de Pedrão. Principalmente, no tempo em que praticava atletismo, onde deixou alguns recordes no salto triplo e salto de altura nas escolas em que estudou.
Logo depois, Pedrinho começou a tocar ao lado de Sueldo Soares nas famosas batucadas natalenses, nos bares como Boteco, Moenda, entre outros agitos. Seu talento já não cabia mais na noite. Nessa mesma época, Pedrinho começou a participar do “Projeto Pixinguinha” em Natal e do "Projeto Pixingão", no Rio de Janeiro, ao lado de João do Vale e Tetê Espínola. Em 1985, ganha o 1º lugar no 2º Festival de Música e Poesia da UFRN. É a consagração.
Um pouco mais maduro, em 1986, Pedrinho começou a pensar no projeto para gravar seu primeiro disco, quando trabalhou durante a campanha de Geraldo Melo para governador e conseguiu levantar a grana para apostar no seu primeiro disco, mesmo contra a opinião de algumas pessoas. Pedrinho juntou 14 músicos e levou todo mundo para Recife, “porque em Natal não havia uma gravadora”, completou.
Em novembro de 1986, ele finalmente gravou “Esquina do Continente”, que foi lançado no ano seguinte, com uma grande força da TV Ponta Negra e com a participação decisiva do saudoso senador Carlos Alberto. Conforme Pedrinho, naquela época estava faltando matéria prima para a elaboração do disco em vinil, que só atendia aos grandes nomes da MPB como Roberto Carlos Caetano Veloso, Fagner, entre outros.
Carlos Alberto usou seu prestígio de senador e conseguiu a prensagem do LP “Esquina do Continente”, com música de Babal, de Carlos Santa Rosa, participação de Sueldo Soares e outras músicas de autoria de Pedrinho como “Linda Baby”, que foi a música que o popularizou.
No final dos anos 80, ele se estabeleceu no Rio de Janeiro, onde morou durante um ano, fazendo várias apresentações na noite carioca. “Meu umbigo está enterrado aqui e resolvi voltar”, relata. Em 1990, volta à Natal para grava seu 2º LP, "Um Pedro a mais", com lançamento simultâneo em Natal (Teatro Alberto Maranhão) e no Rio de Janeiro (Asa Branca). No ano seguinte, novos convites levam Pedrinho à Itália, onde participa do Festival "Marche Canta Brasil" nas cidades de Ancona, Pesaro, Marota, San Benedetto e Porto Recanatte.
A popularidade de Pedrinho aumenta mais ainda quando, no verão de 92/93, apresenta o programa Cabugi Verão, na TV Cabugi, afiliada da Rede Globo. Após sua aparição na tela da Globo, começaram a surgir trabalhos em eventos como Festa do Boi, carnaval na Barra de Maxaranguape e carnaval no Portal das Dunas. “Nessa época, passei muito tempo produzindo música e participando de vários festivais por todo Brasil como em Santa Catarina, Ceará, Paraná, etc.”, conta.
Em 1994, foi vencedor do FECARPO (Festival Regional da Canção Popular), em Cascavel/PR e faz temporada de 6 meses em Santa Catarina, nas cidades de Blumenau e Camboriú. No mesmo ano, firma uma parceria com Babal, viajando à Itacoatiara/AM, onde vence o FECANI (Festival de Canção de Itacoatiara). “Nós fomos os primeiros não amazonenses que venceram esse festival”, revelou Pedrinho. A dupla potiguar recebeu o prêmio das mãos de Nilson Chaves e Cláudio Nucci, do grupo Boca Livre e fizeram shows juntos em Manaus
Foi finalista do "Canta Nordeste"- no auge do programa promovido pela Rede Globo Recife - e seus shows em Natal sempre contaram com grandes públicos. No mesmo ano, abre o Projeto “6 e Meia”, promovido pela Fundação José Augusto, no Teatro Alberto Maranhão, ao lado de Nico Resende. O talento, seu violão e suas composições o levaram a participar em diversos encontros musicais com Valéria Oliveira, Lane Cardoso, Cida Lobo, Luis Gadelha, entre outros artistas, resultando em várias gravações das suas músicas.
Como conseqüência dessa integração com os artistas, nasceu o CD “Cantam-me”, onde suas músicas eram cantadas por Renato Braz, Madrigal da UFRN, Cida Lobo, Lane Cardoso, Valéria Oliveira, entre outros. Em seguida, foi lançado outro CD com o título “Canto-os”, onde Pedrinho interpretava canções de outros compositores como Babal, Carlos Santa Rosa, Diógenes da Cunha Lima, etc.
Atualmente, Pedrinho trabalha no seu mais novo projeto chamado “Escute Aqui”, com composições mais recentes que tem uma proposta mais acústica. “Foi um disco iniciado todo no violão. Então, comecei a convidar alguns músicos para participar desse novo CD que já está em estúdio”, ressalta Pedrinho, anunciando que o disco “Fera Nova” está pronto para sair no início de 2008. Pedrinho também lembra que o ano de 2007 marca os 25 anos do primeiro show realizado no Teatro Alberto Maranhão que se chamou "Tinta viva" e foi feito ao lado de Sueldo Soares.
A verdadeira história de “Linda Baby”
A canção “Linda Baby” é a marca registrada de Pedrinho Mendes. Composta em 1981, quando o músico tinha 18 anos, “Linda Baby” tomou uma dimensão nunca antes imaginada pelo autor. Pedrinho compôs a música para a “cidade que é o meu viver”. Atualmente, “Linda Baby” é considerada oficialmente o “hino extra-oficial” de Natal. “Já cantei essa música em cerimônias onde ela foi considerada como hino da cidade”, salientou.
Pedrinho lembra que certa vez durante uma solenidade oficial onde estavam a governadora Wilma de Faria e o prefeito natalense Carlos Eduardo, Pedrinho cantou “Linda Baby” no momento em que a bandeira da cidade era hasteada. “Nesse dia, com uma conversa informal com a governadora e o prefeito, foi decretada que Linda Baby seria oficialmente o hino extra-oficial de Natal”, relembrou.
Pedrinho reconhece que os versos de Othoniel Menezes, “Serenata ao Pescador”, conhecida como “Praieira” é a primeira referência musical laudatória à cidade de Natal. Mas, faz uma ressalva que sua “Linda Baby” é a mais tocada nas últimas duas décadas. “Isso me deixa muito orgulhoso. Hoje, eu chego a qualquer lugar, seja com pessoas humildes ou no meio de pessoas com destaques na sociedade, e quando eu falo algum trecho da música as pessoas a reconhecem”, afirmou.
A princípio, a música foi feita para uma amiga pernambucana para mostrar os encantos da cidade. Mas, com o tempo, o autor confessar que também era uma homenagem à Natal. Conforme Pedrinho, a palavra “baby” faz parte de uma tradição natalense desde a II Guerra Mundial, quando a cidade teve forte influência americana e explica: “Na verdade, Linda Baby é Sheila, uma amiga pernambucana”.
Nos versos: “Aqui não tem Avenida São João / Nem o mesmo padrão que se tem por aí”, as pessoas podem pensar que Sheila é paulista. Porém, Pedrinho justifica que ela falava muito que conhecia São Paulo e outros lugares sofisticados. “Naquela época, ela reclamava que Natal não tinha uma escada rolante e outros confortos de uma grande cidade. Então, resolvi escrever uma espécie de carta, cantando para ela voltar sempre aqui porque Natal tem outras coisas que ela não encontra em outros lugares”, disse.
Na época, Sheila era prima de uma namorada natalense de Pedrinho, que afirma não ter tido nenhum tipo de envolvimento amoroso com a “Linda Baby”. Algum tempo depois, Sheila conheceu a música e mudou sua opinião em relação à cidade. De acordo com Pedrinho, quando ela voltou à Natal, ouviu a música, adquiriu o CD, ela tornou-se completamente apaixonada quando atendeu ao apelo “Linda Baby volte sempre aqui”.
A polêmica dos baixos cachês
Pedrinho é um critico ferrenho da disparidade que há entre os cachês pagos aos artistas locais e aqueles nacionalmente conhecidos da Musica Popular Brasileira quando vêm fazer shows em Natal. O músico natalense relata que reclamou com alguns produtores culturais em relação ao tratamento dispensado aos artistas nacionais. “Enquanto os artistas potiguares têm uma tenda com água, as estrelas nacionais dispõem de camarotes com ar condicionado, mesa de frios e uísque importado”, afirmou.
Pedrinho concorda que essa concepção não é apenas de quem produz os shows. “Esse é um problema da classe artística local. Quando a gente não reclama em função de um direito legítimo, a gente acaba se contentando com pouco. Eu exijo, mas exijo sozinho”, desabafou. O músico também relata que está sendo boicotado em alguns eventos por causa da sua postura em defender cachês mais dignos para a classe.
Conforme Pedrinho Mendes, os artistas potiguares devem se unir para, em bloco, protestar contra essa política predatória. “Já está na hora dos dirigentes culturais pagarem um cachê melhor e ter orgulho de pagar bem”, ressaltou Pedrinho, sugerindo que os Poderes Públicos diminuíssem o número de artistas em cima do palco para aumentar o cachê. “Se os artistas se unirem em tono de um objetivo comum, os produtores começariam a valorizar mais o artista local”, disse.
Essa política desigual, praticada pelo Governo do Estado e Prefeitura do Natal, foi praticada durante os festejos do “Natal em Natal”, em pleno Machadão. A cantora Rita Lee firmou contrato com o Município pela bagatela de R$ 148.500. Enquanto isso, o cachê das artistas potiguares para cantar durante a inauguração da ponte, Khrystal e Valéria Oliveira, foi de R$ 2.500. No final do show, usando uma simples calculadora, qualquer pessoa descobre que uma Rita Lee vale 30 vezes mais do que Khrystal e Valéria juntas.
Linda Baby
(Pedrinho Mendes)
Essa é uma terra de um deus mar
De um deus mar que vive para o sol
E esse sol está muito perto daqui
Venha e veja tanto quanto pode se curtir
Linda terra para a mãe gentil
Belo cai o sol sobre esse rio
E esse rio também está perto daqui
Venha e veja tanto quanto é o nosso Potengi
Sempre que estiveste por aqui
Não observaste o nosso ser
Não aproveitaste o lindo olhar ao céu
Venha, pois não dá prá dizer tudo no papel
Curte-se aqui ao natural
A natureza espalha o nosso chão
Estou cantando a terra que é o meu viver
E acontece que eu estou cansado de dizer
Que aqui não tem Avenida São João
Nem o mesmo padrão que se tem por aí
Coisas que não tem em todo o canto não se deve exigir
Isso é Natal, ninguém se dá muito mal
Como dizem pessoas quase sem se sentir
Linda baby, baby linda, volte sempre aqui.
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