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Alexandro Gurgel
| alex-gurgel@oi.com.br
| 20/05/2008


Zé Saldanha: “Criei-me como um cavaleiro medieval errante, no polígono da poesia popular, no reino dos cantadores.”


NATAL - Aos 90 anos de, José Saldanha Menezes Sobrinho, ou simplesmente Zé Saldanha, como gosta de ser chamado, é o cordelista mais velho em atividade no Rio Grande do Norte, um dos poucos da sua idade exercendo a Literatura de Cordel no Brasil. Nascido e criado na Fazenda Piató, em Santana dos Matos, mudou-se várias vezes de casa com a família até fixar residência em Natal, mas nunca deixou de ser um matuto sertanejo, ligado as suas raízes.
Conforme o poeta, ele é do tempo em que os homens mais sabidos só possuíam 3 tipos de livros: a Bíblia, e Lunário Perpétuo e o Cordel. Depois de casado, o poeta conduziu jumento de carga, foi cantador de viola, dono de mercearia em Currais Novos e foi empresário no ramo de sapatos, onde vendia seus produtos em feira livres recitando poesia. “No tempo em que nasci e me criei, o repente e o cordel eram o que havia. O cordel era toda a beleza”, ressaltou o poeta.
Zé Saldanha já publicou mais de 200 livretos de cordel, livros em prosa, além de ser um dos únicos cordelistas que ainda mantêm a tradição de publicar anualmente almanaques (livretos onde o cordelista faz previsões sobre o tempo, fornece orientações e informações agrícolas, folclóricas e religiosas baseadas no senso comum), sendo citado em inúmeras antologias de cordel. Zé Saldanha é também o único representante do Rio Grande do Norte na conceituada coleção “Projeto Biblioteca de Cordel”, coordenada pelo escritor Joseph Luyten, da editora paulista Hedra.
Zé Saldanha já publicou quase mil folhetos, está e um dos verbetes do Dicionário de Poetas Cordelistas do RN, de Gutenberg Costa de 2004, e é o único representante do RN na coleção brasileira da editora Hedra, de São Paulo/SP, 2001. Seus familiares e amigos estarão no dia 23 próximo, na Igreja de São Pedro, ás 19 horas, no Bairro do Alecrim, para numa missa agradecerem pelos 90 anos do poeta.
O primeiro folheto foi “O preço do algodão e o orgulho do povo”, foi publicado em 1935, aos 17 anos. “O algodão era a riqueza da época, chamava-se o ouro branco do Nordeste. Meu pai era um grande lavrador de algodão e no início o dinheiro não era muito, mas depois foi melhorando e era todo mundo cheio do dinheiro do algodão. Todo mundo tinha dinheiro no bolso, o apanhador, a mocinha, mulher, menina, velha, todo mundo com o seu bolo de dinheiro. E aí começaram a ficar orgulhosos, beber, farrear, e foi isso que me inspirou”, relatou o poeta.

O Repórter das Rimas

Sobre a atividade como sapateiro, o cordelista conta que resolveu montar uma sapataria e empregou muita gente. Nesta sapataria, o poeta colocou seu sobrenome, “Calçados Menezes” e dentro das caixas de sapatos, Zé Saldanha colocava uma propaganda que dizia: “Para comprar calçados eu aviso aos meus fregueses/ eu ando de pé descalço, semanas, dias e meses./ Fico até de pé rachado, porém só compro calçados, dentro da fábrica Menezes”.
“Antigamente, quando eu chegava à feira com os cordéis, arrudiava de gente para prestar atenção, e eu ficava lendo, fazendo leilão dos meus livretos e vendendo os calçados”, revelou o Zé Saldanha, acrescentando que foi durante essa época que ganhou o título de “Reporte do Povo”, por retratar o cotidiano do sertão em poesia e para levar as notícias dos fatos que aconteciam no Brasil e no mundo para o sertão. Zé Saldanha usava seus versos “porque naquele tempo não tinha televisão e poucos possuíam um rádio”.
Sua reportagem em poesia mais famosa foi a partir de um acidente em Currais Novos, que vitimou 25 pessoas na região. O acidente aconteceu pela manhã e, à tarde, num local onde não havia nenhum meio de comunicação, Zé Saldanha já tinha um folheto pronto chamado “A verdadeira história do monstruoso acidente em Currais Novos”, contando toda a verdade sobre o acidente. Na época, mais de quatro mil exemplares do cordel foram vendidos.
Além de poeta cordelista, Zé Saldanha criou a Associação Estadual dos Poetas Populares do Rio Grande do Norte (AEPP), em 1975, agregando repentistas, emboladores de coco, aboiadores, glosadores e poetas de cordel, entre outros rtistas. Além disso, em 1979, travou batalha junto ao Ministério do Trabalho pelo reconhecimento da profissão de poeta popular, visando a conquista de direitos trabalhistas para a categoria. Em 1993, foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira dos Estudos do Cangaço (SBEC) e, atualmente, é membro da Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do RN.
O poeta ficou viúvo há mais de uma década. Foi casado por 52 anos com Jovelina Dantas de Araújo Saldanha, com quem teve oito filhos, “todos formados”. Dos oito, apenas o mais velho, Rosáfico Saldanha Dantas, seguiu os passos do pai e também escreve cordel. “Ele escreve tudo que colocarem para ele. Livro, cordel, qualquer coisa”, disse o poeta, enaltecendo os versos do primogênito, na certeza que o ofício da poesia foi herdado por um dos seus. Atualmente, sua obra é fonte de pesquisa em trabalhos acadêmicos como monografia ou tese de mestrado e doutorado.


Poemas

Morte, Vida e Lembrança
de Severino Ferreira

Sou o repórter das rimas
De tudo que acontecer,
Deus me deu este destino
Eu tenho que resolver,
Mas este é tragicamente
Tão duro, tão comovente
Que dói a gente escrever
(...)

Quisera que a morte trágica
Mudasse de Região,
Não passasse mais no Nordeste
Fanzedo destruição
Nos poetas de primeira,
Levou o nosso Ferreira
Sem a mínima compaixão

Não sei por que motivo
A morte é tão imprudente,
Contra os nossos cantadores
Dura, cruel, insolente,
Matando nossos poetas
Só sendo inveja das metas
Da poesia da gente


Matuto no Carnavá

Matuto é matuto mesmo
É matuto de verdade.
Que diabo qu’é matuto
Se enfiando na cidade?
Brincando inté carnavá!
Eu brinquei mas me dei má,
Num conto nem a metade!
(...)

Ela perguntou baixinho:
Você tem algum dinheiro?
Eu disse: Tenho, pru quê?
Ela respondeu ligeiro:
Então me dê preu guardá,
Prus ladrão não lhe robá,
Que aqui só tem marreteiro

Foi pegando meu dinheiro,
E tratando de correr.
Como quem ia guardá,
Mas se virou prá dizer:
“Qué qui pensa matutão?
Eu num sou Maria não.
Sou Machão qui nem você!”


| Alexandro Gurgel, Jornalista

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